Justiça

O sufrágio universal: a mais radical invenção da democracia

Ao reconhecer que cada cidadão possui exatamente um voto, independentemente de riqueza, escolaridade, profissão, religião ou posição social, a democracia afirma um princípio transformador: perante as decisões políticas, todos possuem igual dignidade

Escrito por Alessandro Braga
10 de julho de 2026
Foto: Reprodução

Existe uma pergunta que raramente fazemos porque a resposta parece óbvia demais: por que o voto universal é tão importante para a democracia?

A resposta mais comum costuma ser simples: porque permite que todos escolham seus governantes. Embora correta, ela é insuficiente. O sufrágio universal não representa apenas um mecanismo de escolha política. Representa uma das maiores revoluções de igualdade já produzidas pela humanidade.

Durante boa parte da história, participar das decisões públicas era privilégio de poucos. Em diferentes épocas e lugares, o direito ao voto foi condicionado à renda, ao patrimônio, ao sexo, à alfabetização, à religião ou à origem social. A mensagem implícita era sempre a mesma: algumas pessoas eram politicamente relevantes; outras, simplesmente não.

O sufrágio universal rompeu essa lógica. Ao reconhecer que cada cidadão possui exatamente um voto, independentemente de riqueza, escolaridade, profissão, religião ou posição social, a democracia afirma um princípio transformador: perante as decisões políticas, todos possuem igual dignidade.

Na vida econômica, somos profundamente desiguais. Na vida social, acumulamos diferenças de renda, prestígio, conhecimento e influência. Mas, diante da urna, todas essas desigualdades precisam ceder espaço a uma igualdade política fundamental — nenhuma pessoa vale mais do que outra quando o assunto é decidir os rumos da coletividade.

É precisamente por isso que eleições democráticas produzem desconforto: elas obrigam grupos sociais distintos a aceitar que o destino comum será construído pela soma de vontades igualmente legítimas, e não pela superioridade econômica, intelectual ou moral de qualquer segmento da sociedade.

O Brasil conhece bem essa resistência. As mulheres só conquistaram o direito ao voto em 1932. Os analfabetos — cerca de um quarto do eleitorado potencial à época — só o obtiveram com a Emenda Constitucional nº 25, de 1985.

Em ambos os casos, o argumento invocado para a exclusão nunca foi apresentado como preconceito, mas como prudência: dizia-se que faltava a esses grupos a autonomia, a instrução ou o discernimento necessários para votar bem.

A distância entre 1932, 1985 e o presente não é tão grande quanto parece, a lembrança é sempre necessária porque o argumento da incapacidade eleitoral sempre volta a reaparecer, eventualmente sob nova roupagem.

Havia, por trás de todos esses argumentos, uma mesma premissa: a de que existiam cidadãos capazes de votar “corretamente” e outros naturalmente inclinados a fazer escolhas “erradas”. A história do sufrágio universal é, em grande medida, a história da rejeição dessa ideia.

Democracias constitucionais não reconhecem votos certos e votos errados. Reconhecem votos livres. O Estado não existe para selecionar quais preferências políticas merecem ser expressas, mas para garantir que todos possam expressá-las em igualdade de condições.

Às vésperas de mais um ciclo eleitoral, multiplicam-se críticas à qualidade das escolhas feitas pelos eleitores. Questiona-se se a população está suficientemente informada, se compreende o funcionamento das instituições ou se é excessivamente influenciada pelas redes sociais.

Essa preocupação merece ser levada a sério — e é diferente, em sua formulação, dos velhos critérios de renda ou instrução: não propõe restringir quem vota, mas questiona se as condições atuais permitem um voto verdadeiramente livre. A distinção importa.

Mas a conclusão que dela se extrai costuma repetir o mesmo erro histórico: transformar um problema de ambiente informacional em um problema de aptidão do eleitor. O risco não está em reconhecer que a manipulação existe — está em, a partir dela, reabrir a pergunta sobre quem merece votar, em vez de perguntar como proteger a liberdade de quem já vota.

O desafio contemporâneo não é escolher quem merece votar. É criar condições para que todos possam votar de maneira cada vez mais livre, consciente e informada — o que significa fortalecer a educação cívica, proteger a integridade do ambiente informacional e combater formas ilegítimas de manipulação, sem jamais transferir para o próprio eleitor o ônus dessa proteção.

A resposta democrática para os problemas da democracia nunca foi reduzir a participação política. Sempre foi qualificá-la.

Essa distinção é fundamental porque o raciocínio que hoje desconfia do eleitor é o mesmo que, historicamente, excluiu pobres, mulheres e analfabetos da vida pública. A forma muda; a lógica permanece. E ela continua incompatível com a ideia de igualdade política.

Nenhuma democracia é perfeita. Eleitores, governantes e instituições erram. Mas a alternativa nunca foi substituir a igualdade política por algum critério supostamente mais racional para decidir quem pode participar da vida pública — porque toda vez que alguém reivindicou esse poder ao longo da história, a democracia perdeu um pouco de sua essência.

O sufrágio universal não garante boas escolhas. Garante algo ainda mais importante: que todos tenham o mesmo direito de participar da construção dessas escolhas. E talvez seja exatamente essa a maior virtude da democracia — reconhecer que, diante do destino comum de uma sociedade, nenhuma voz vale mais do que outra.

Colunista

Alessandro Braga

Alessandro Braga

Doutor e Mestre em Direito Constitucional

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