Há uma pergunta que o Brasil precisa se fazer com honestidade às vésperas de mais um ciclo eleitoral: estamos diante de uma democracia exausta, que perdeu a capacidade de se renovar? A resposta, felizmente, ainda é não. Mas a pergunta não deve ser descartada com leviandade, e ela precisa ser levada a sério, porque os sinais que a motivam são reais e os riscos que ela antecipa não são imaginários.
Democracias raramente morrem de uma vez. Atualmente, não há mais tanques nas ruas, nem atos institucionais firmados de madrugada. A época dos golpes de Estado tradicionais parece encerrada. O colapso democrático contemporâneo opera de forma mais sutil e mais insidiosa: instala-se no descrédito progressivo das instituições, no esgotamento da linguagem pública, na substituição do debate racional pela guerra permanente de narrativas emocionais.
É esse processo silencioso, que tem substituído o autoritarismo declarado, a representar o maior risco para as democracias do nosso tempo. O inimigo não chega com uniforme, mas sim com a aparência da normalidade e eleito democraticamente.
O crescimento global de discursos antissistema talvez seja um dos sinais mais evidentes da crise de confiança que atravessa as democracias contemporâneas.
Em diferentes partes do mundo, lideranças passaram a construir capital político justamente a partir da negação da política tradicional e da promessa de ruptura com aquilo que chamam de “sistema”.
Parte significativa da população deixou de enxergar a política como espaço legítimo de construção coletiva e passou a vê-la como ambiente de cinismo, privilégios e conflito permanente. A descrença na classe política deixou de ser mero descontentamento episódico para se transformar em fenômeno estrutural de desconfiança democrática.
O Brasil de 2026 não está imune a esse risco. Os sinais de tensão são reais e não devem ser minimizados. Em alguns casos, o debate público foi progressivamente capturado por uma lógica de destruição mútua, em que o adversário político deixou de ser um concorrente legítimo para ser tratado como inimigo existencial. A política virou espetáculo permanente de hostilidade.
A verdade passou a disputar espaço com versões emocionalmente mais convenientes da realidade. Plataformas digitais, movidas por algoritmos que privilegiam o engajamento emocional sobre a razão, amplificaram sistematicamente o pior de cada lado, pois na lógica mercantil das redes sociais, quanto maior a capacidade de provocar medo, raiva ou choque, maior tende a ser o alcance do conteúdo.
Nesse ambiente, a radicalização não é um acidente: é o produto previsível de uma arquitetura construída para isso.
As consequências dessa dinâmica são conhecidas, pois as eleições deixam de ser disputas de propostas para se tornarem disputas de percepção e manipulação emocional em escala, ao mesmo tempo em que candidatos ocupam o espaço público vinte e quatro horas por dia, construindo capital político de forma permanente por meio de redes sociais, influenciadores e cortes de vídeo.
Com isso, a lógica eleitoral já não se limita ao período formal de campanha, mas se estende indefinidamente, sem pausa, sem descanso, sem espaço para a reflexão que a política democrática exige.
A esse quadro já complexo, 2026 adiciona um elemento inédito, qual seja a consolidação da inteligência artificial generativa como ferramenta de comunicação política de massa.
Pela primeira vez na história eleitoral brasileira, estarão amplamente disponíveis tecnologias capazes de produzir vídeos, áudios, imagens e discursos artificialmente fabricados com alto grau de realismo, com uma velocidade que pode se mostrar efetivamente incompatível com os mecanismos convencionais de verificação pública.
Não se trata de desinformação no sentido tradicional, aquela que sempre existiu e que as sociedades aprenderam a enfrentar com algum grau de eficiência. Trata-se de algo qualitativamente distinto, isto é, a possibilidade concreta de fabricar eventos que nunca aconteceram, atribuí-los a pessoas reais e impulsioná-los antes que qualquer desmentido tenha alcance comparável.
Para existirem, as democracias dependem de um pressuposto fundamental, raramente explicitado, mas absolutamente indispensável que é justamente a existência de uma realidade minimamente compartilhada entre os cidadãos.
Sem esse chão comum, a deliberação racional perde sentido, porque não há como debater propostas quando a própria existência dos fatos está em disputa. Quando a realidade se torna manipulável em escala industrial, o ambiente democrático não apenas se fragiliza, ele perde a base sobre a qual qualquer acordo político pode ser construído.
A meu sentir, esse é o verdadeiro desafio tecnológico de 2026, e ele exige respostas urgentes sobre transparência algorítmica, identificação obrigatória de conteúdos sintéticos e responsabilidade efetiva das plataformas digitais.
É nesse cenário que o papel da Justiça Eleitoral se torna ainda mais relevante. Existe uma narrativa politicamente interessada, e relativamente disseminada, que enquadra as instituições eleitorais como obstáculos burocráticos à liberdade política. Ela precisa ser desafiada com firmeza.
A função constitucional da Justiça Eleitoral não é produzir vencedores, mas sim preservar as condições mínimas de integridade da competição democrática. Isso envolve garantir regularidade procedimental, assegurar igualdade mínima de oportunidades entre candidaturas, combater abusos de poder político e econômico e enfrentar práticas de desinformação eleitoral.
Sem confiança no processo, não há resultado legítimo. E sem resultado legítimo, não há democracia. O que sobra é apenas a força bruta de quem recusa perder.
É fundamental que se fale a respeito da diferença estrutural entre a crítica institucional legítima, que exige aperfeiçoamento e é ela própria um valor democrático, e a estratégia deliberada de corrosão da confiança pública, que não busca melhorar as regras do jogo, mas torná-las ilegítimas aos olhos de quem perde.
Quando setores políticos passam a desacreditar sistematicamente as instituições eleitorais sem apresentação responsável de fundamentos consistentes, o dano produzido transcende disputas partidárias imediatas. O que se fragiliza é o próprio ambiente democrático. Democracias sobrevivem porque os derrotados aceitam perder. E os derrotados só aceitam perder quando acreditam, ainda que minimamente, na legitimidade das regras comuns.
Mas voltemos à pergunta do título, exatamente porque ela merece uma resposta precisa. Uma democracia cansada é aquela que desistiu, ou seja, trocou a esperança pela apatia, a disputa pela resignação, a crença no futuro pela nostalgia de um passado que nunca foi tão bom quanto parece. Não é isso que o Brasil demonstra. O que vivemos é tensão, e isso é algo radicalmente diferente de cansaço.
A tensão é sinal de vida democrática. Sociedades que não divergem, que não disputam, que não tensionam suas instituições não são sociedades em paz, mas sim sociedades em silêncio. O conflito, quando mediado por regras democráticas, não enfraquece a democracia, ao reverso, é a sua matéria-prima.
O que enfraquece a democracia é a recusa em aceitar que o conflito tem limites, que a disputa tem regras e que a derrota não é o fim do mundo, mas o começo da próxima rodada. A democracia não exige unanimidade. Nunca exigiu. Foi construída exatamente para administrar divergências profundas sem ruptura institucional.
O Brasil já atravessou momentos mais sombrios do que este e encontrou, no horizonte, a reafirmação da democracia como único caminho possível. Não porque seja perfeita, e não podemos nutrir a ilusão de que seja porque não é. Não porque resolva todos os problemas de uma vez, porque não resolve. Mas porque é o único sistema que permite corrigir os próprios erros sem ruptura, que garante ao derrotado de hoje a possibilidade de vencer amanhã, e que reconhece na pluralidade não uma ameaça a ser eliminada, mas a condição de existência da própria política.
A democracia brasileira está esgarçada em alguns pontos, tensionada em outros, submetida a pressões tecnológicas e políticas que exigem respostas à altura. O desafio de 2026 é real, e seria irresponsável fingir que não é. Mas há uma diferença entre reconhecer os desafios e capitular diante deles. Entre admitir o cansaço possível e antecipar a derrota como inevitável.
A democracia não está cansada. E enquanto não estiver, há tudo a fazer e razões de sobra para continuar.
Colunista
Alessandro Braga
Doutor e Mestre em Direito Constitucional
