Nesta quarta-feira (3/9), São Gabriel da Cachoeira, município fundado oficialmente em 3 de setembro de 1891, completa 134 anos. Localizado no extremo noroeste do Amazonas, na região conhecida como “Cabeça do Cachorro”, faz fronteira com a Venezuela e a Colômbia.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a fundação do município, registrada pela Lei Estadual nº 10, marca o início da sua organização administrativa. A data simboliza também a consolidação de um território que abriga uma das maiores populações indígenas do Brasil e preserva uma riqueza cultural única, refletida nas tradições, línguas e práticas ancestrais de seus povos originários.
Apesar das origens ligadas às missões religiosas e expedições militares, a história do município é muito mais antiga: o território é habitado há milhares de anos pelos povos indígenas do Alto Rio Negro. Esse legado permanece vivo até hoje, uma vez que São Gabriel é reconhecido como o município mais indígena do Brasil.

Segundo os dados do IBGE, estima-se que cerca de 90% da população de São Gabriel da Cachoeira seja formada por indígenas de diferentes etnias como:
- Tukano;
- Baniwa;
- Yanomami;
- Baré;
- Dessana;
- Tariana.
Em reconhecimento a essa identidade, São Gabriel da Cachoeira entrou para a história em 2002, ao se tornar o único município brasileiro a ter, além do português, três línguas indígenas oficiais: Nheengatu, Tukano e Baniwa. A decisão reforça a importância da pluralidade linguística e do respeito às tradições dos povos do Rio Negro.
As organizações indígenas desempenham papel central na vida social e política de São Gabriel da Cachoeira. Entre elas, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) se destaca por sua atuação na defesa dos direitos coletivos, na valorização cultural e na proteção dos territórios tradicionais.

Esse protagonismo contribui para que os povos da região mantenham vivas suas tradições, fortalecendo a identidade indígena em um espaço marcado pela diversidade.
A presença indígena se manifesta no dia a dia do município: no artesanato que valoriza técnicas ancestrais, na culinária baseada em ingredientes da floresta, nas celebrações culturais que preservam rituais e mitologias, além da relação com a natureza, que guia práticas sustentáveis e a transmissão de saberes entre gerações.
Artesanato: identidade cultural e geração de renda
O artesanato indígena é uma das principais manifestações culturais e econômicas de São Gabriel da Cachoeira. Produzido principalmente por mulheres, são utilizadas técnicas tradicionais passadas de geração em geração, com matérias-primas da floresta, como: sementes, argilas, palhas de cipó, fibras e madeiras, para criar colares, cestos, redes, instrumentos musicais e peças utilitárias.

O artesanato indígena do município não se resume apenas à produção de peças decorativas. Cada objeto carrega significados espirituais e simbólicos ligados à cosmologia dos povos do Alto Rio Negro, refletindo sua visão de mundo e a relação com a natureza.
Além do valor cultural, essas produções se tornaram uma importante fonte de renda, sobretudo para as mulheres artesãs, que desempenham papel essencial na transmissão de saberes e no sustento de suas famílias.
A comercialização das peças fortalece a economia local, assegura maior autonomia financeira às comunidades indígenas e, ao mesmo tempo, contribui para a preservação ambiental e a valorização das tradições ancestrais.
