Justiça

A campanha de 2026 já começou. Você só ainda não percebeu.

As plataformas digitais, como Instagram, TikTok, YouTube, X e WhatsApp, operam a partir de uma lógica simples e poderosa: mostrar a cada pessoa aquilo que tem maior chance de mantê-la conectada

Escrito por Alessandro Braga
21 de maio de 2026
Foto: Reprodução

Abra o seu celular agora. Role o feed por dois minutos. Provavelmente você vai se deparar com algum vídeo sobre política: uma fala recortada de um candidato, uma denúncia apresentada como escândalo definitivo, uma polêmica fabricada para provocar indignação ou uma notícia construída para confirmar aquilo que você já pensa. Talvez você nem perceba, mas o que está vendo não chegou até você por acaso. Foi escolhido para você. E isso tem tudo a ver com a eleição do ano que vem.

A campanha eleitoral de 2026 oficialmente ainda não começou. O calendário eleitoral, as regras do horário de propaganda, o período formal de campanha e os debates televisivos ainda parecem distantes do cotidiano da maior parte da população. Mas a disputa pela atenção, pela emoção e pela percepção dos eleitores já está em curso há muito tempo. Ela acontece todos os dias, em silêncio, no lugar que quase todos nós visitamos dezenas de vezes por dia: a tela do celular.

Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes da política contemporânea. A eleição já não começa quando a Justiça Eleitoral autoriza a propaganda. Essa dinâmica mudou, e eu percebo isso como advogado eleitoralista acompanhando eleições de perto há quase 30 anos.

Atualmente, a eleição começa muito antes, na construção lenta e permanente de identidades políticas, medos, ressentimentos, simpatias e rejeições. O eleitor chega ao período formal de campanha muitas vezes acreditando que está começando a escolher, quando, na verdade, já foi exposto durante meses — às vezes anos — a estímulos cuidadosamente organizados para moldar sua percepção sobre partidos, lideranças, instituições e adversários.

As plataformas digitais, como Instagram, TikTok, YouTube, X e WhatsApp, operam a partir de uma lógica simples e poderosa: mostrar a cada pessoa aquilo que tem maior chance de mantê-la conectada. E o que mantém as pessoas conectadas por mais tempo? Emoção. Indignação. Raiva. Medo. Confirmação de crenças anteriores. Sensação de pertencimento. Sensação de ameaça. Não é teoria da conspiração. É o funcionamento ordinário de um modelo de negócios baseado na captura da atenção.

Quanto mais você reage a determinado tipo de conteúdo, mais conteúdo semelhante aparece para você. O algoritmo aprende o que provoca sua permanência e passa a alimentar esse padrão. Se você se indigna com certo tema, receberá mais conteúdos parecidos. Se assiste até o fim a vídeos que confirmam sua visão de mundo, a plataforma entenderá que aquele tipo de estímulo funciona. Aos poucos, sem que você perceba, seu ambiente informacional vai sendo personalizado, filtrado e estreitado.

É nesse ponto que surge um dos maiores problemas democráticos do nosso tempo: as câmaras de eco.

Uma câmara de eco se forma quando as pessoas passam a receber majoritariamente informações, opiniões e interpretações que confirmam aquilo em que já acreditam. O problema não é alguém ter convicções políticas. Isso faz parte da democracia. O problema é quando essas convicções deixam de ser confrontadas por fatos, argumentos e perspectivas diferentes. Nesse ambiente, o cidadão não apenas pensa de determinada maneira; ele passa a acreditar que todas as pessoas razoáveis pensam como ele, e que quem discorda só pode estar mal-informado, corrompido ou moralmente comprometido.

A democracia, no entanto, depende de algo mais difícil: a convivência entre diferenças dentro de um mesmo ambiente político comum. Democracias não exigem consenso absoluto. Nunca exigiram. Mas exigem alguma base compartilhada de realidade. As pessoas podem divergir sobre quais políticas públicas devem ser adotadas, quais candidatos são melhores ou qual projeto de país deve prevalecer. Mas precisam, ao menos, reconhecer um conjunto mínimo de fatos comuns sobre os quais essa divergência possa acontecer.

Quando cada grupo político passa a viver dentro de sua própria bolha informacional, o debate público se deteriora. A divergência deixa de ser disputa legítima e passa a ser tratada como ameaça. O adversário deixa de ser alguém com quem se discorda e passa a ser visto como inimigo a ser derrotado moralmente, socialmente e, em alguns casos, institucionalmente. A política perde a capacidade de mediar conflitos e passa a produzir apenas hostilidade.

Esse processo altera profundamente o sentido das eleições. Em tese, eleições são momentos de escolha pública entre alternativas políticas. Mas, em ambientes dominados por câmaras de eco, elas passam a funcionar também como batalhas de realidade. Cada campo político chega à disputa convencido de que enxerga a verdade que o outro se recusa a ver. A derrota eleitoral, então, deixa de ser interpretada como resultado possível de uma competição democrática e passa a ser percebida como prova de fraude, manipulação, traição ou decadência moral da sociedade.

É por isso que a desinformação é tão perigosa. Não apenas porque produz mentiras isoladas, mas porque corrói a possibilidade de uma conversa pública minimamente racional. Uma democracia pode sobreviver a governos ruins, a crises econômicas, a disputas intensas e a conflitos ideológicos profundos. Mas nenhuma democracia funciona bem quando seus cidadãos deixam de compartilhar qualquer noção comum sobre a realidade.

Em 2026, esse desafio será ainda maior por causa da inteligência artificial generativa. Hoje já existem tecnologias capazes de produzir vídeos, áudios, imagens e textos falsos com alto grau de realismo. Um candidato pode aparecer dizendo algo que nunca disse. Uma cena que nunca aconteceu pode ser fabricada. Um áudio inventado pode circular em grupos de WhatsApp com aparência de prova definitiva. E tudo isso pode acontecer numa velocidade muito maior do que qualquer checagem consegue acompanhar.

A novidade não está apenas na mentira. Mentiras sempre existiram na política. A novidade está na escala, na velocidade e no realismo da fabricação. A inteligência artificial permite produzir conteúdos falsos com aparência cada vez mais convincente, distribuídos para públicos específicos, em momentos estratégicos e com enorme potencial de viralização. Em um ambiente já organizado por bolhas, isso pode produzir efeitos particularmente graves.

Por isso, talvez a pergunta mais importante diante de cada conteúdo político não seja apenas “isso é verdadeiro ou falso?”. Essa pergunta continua essencial. Mas há outras perguntas igualmente relevantes: por que isso chegou até mim agora? Quem se beneficia da minha indignação? Esse conteúdo está tentando me informar ou apenas me provocar? Ele me aproxima da compreensão da realidade ou me empurra para dentro de uma bolha cada vez mais fechada?

A Justiça Eleitoral terá papel decisivo nesse cenário. Sua função não é escolher vencedores nem controlar o debate público de maneira arbitrária. Sua função constitucional é preservar as condições mínimas de integridade da competição democrática. Isso inclui enfrentar abusos de poder, proteger a igualdade possível entre candidaturas, combater práticas ilícitas de desinformação e estabelecer parâmetros responsáveis para o uso de tecnologia no processo eleitoral.

Mas seria ilusório imaginar que a Justiça Eleitoral resolverá sozinha esse problema. Nenhuma instituição, por mais importante que seja, conseguirá proteger a democracia se a sociedade abandonar completamente o compromisso com a verdade, com a prudência e com a responsabilidade pública. A integridade eleitoral depende das instituições, mas também depende dos cidadãos.

Seria desonesto terminar este texto com uma lista de conselhos individuais. Verificar a fonte, fazer uma pausa antes de compartilhar, desconfiar de conteúdos que provocam raiva imediata — tudo isso é válido, mas insuficiente diante de um problema que é estrutural. As plataformas foram projetadas por engenheiros, financiadas por anunciantes e otimizadas por algoritmos que operam em escala industrial. Pedir que cada cidadão resista individualmente a essa estrutura é como sugerir que o nadador resolva a corrente oceânica remando mais forte.

O que é possível — e não é pouco — é a consciência. Saber que você está sendo disputado muda a forma como você recebe o que chega até você. Não elimina a influência, mas cria uma distância mínima entre o estímulo e a reação. E essa distância, por menor que pareça, é o espaço onde ainda existe alguma liberdade política real.

O problema maior exige respostas maiores: regulação responsável das plataformas, transparência sobre o funcionamento dos algoritmos, educação midiática desde cedo e instituições eleitorais com capacidade real de atuar nesse ambiente. Essas respostas dependem de escolhas coletivas, não de virtude individual.

A campanha de 2026 já começou. Não nos palanques, não no horário eleitoral, não apenas nos partidos. Ela começou no feed, nos grupos de mensagem, nos vídeos curtos, nos cortes emocionais, nas narrativas repetidas todos os dias até parecerem evidentes.

A pergunta, portanto, não é apenas em quem você vai votar.

A pergunta é: dentro de qual realidade você estará vivendo quando chegar a hora de decidir?

Colunista

Alessandro Braga

Alessandro Braga

Doutor e Mestre em Direito Constitucional

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