O prefeito de Manaus e pré-candidato ao Governo do Amazonas, David Almeida (Avante), afirmou nesta quarta-feira (18/3), durante entrevista ao radialista Daniel Anzoategui, da Rádio Difusora, que sua gestão é marcada por “lisura”, “probidade” e ausência de escândalos. A declaração, no entanto, contrasta com episódios já noticiados por veículos de imprensa e que geraram questionamentos sobre a administração municipal.
Ao reforçar a imagem de uma gestão sem irregularidades, o prefeito citou números da administração, como a realização de mais de 1.400 licitações e uma suposta economia bilionária aos cofres públicos. Segundo ele, não há investigações relevantes envolvendo sua gestão, nem operações de órgãos de controle que indiquem problemas estruturais.
Apesar da afirmação, o prefeito não mencionou casos que tiveram repercussão nos últimos anos, como denúncias envolvendo a Secretaria Municipal de Educação (Semed) e a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp). Os episódios foram divulgados por portais de notícia e levantaram questionamentos sobre contratos e práticas administrativas.
Operação da PF

Operação Entulho foi deflagrada pela Polícia Federal, em ação conjunta com a Receita Federal e o Ministério Público Federal (Foto: Divulgação Polícia Federal)
No caso envolvendo a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), comandada pelo secretário Sabá Reis (PDT), foi deflagrada, em 2023, a Operação Entulho, conduzida pela Receita Federal, Polícia Federal e Ministério Público Federal no Amazonas. A ação investiga um esquema de sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e uso de notas fiscais “frias” envolvendo empresas do setor de limpeza pública em Manaus. Após três anos de apuração, foram identificadas 31 empresas de fachada e um escritório de contabilidade, que teriam movimentado cerca de R$ 245 milhões em operações fraudulentas entre 2016 e 2021, com prejuízo estimado superior a R$ 100 milhões em tributos federais. Durante a operação, foram cumpridos mandados de prisão — com seis detenções efetivadas —, além da apreensão de veículos e mais de R$ 100 mil em dinheiro. O caso segue sob sigilo.
Semed
No caso da Secretaria Municipal de Educação (Semed), Ministério Público do Amazonas (MPAM) instaurou inquérito civil para investigar o uso indevido da estrutura da Secretaria Municipal de Educação (Semed) em favor da reeleição do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), em 2024. A apuração tem como foco a atuação da então secretária Dulcineia Almeida, irmã do prefeito, suspeita de promover reuniões em escolas municipais para mobilizar apoio eleitoral junto a pais de alunos. O caso teve origem em denúncia e prevê coleta de provas junto a órgãos como o Conselho Municipal de Educação e o Ministério Público Eleitoral. Além desse procedimento, Dulcineia também é investigada em outras frentes, incluindo suspeitas de recebimento de propina e de irregularidades no uso de recursos do Fundeb.
Operação “Erga Omnes”
A declaração também não aborda desgastes decorrentes de situações de caráter pessoal e político. Entre os casos citados no debate público está a repercussão de uma viagem ao Caribe em período sensível da gestão, além de menções à operação “Erga Omnes”, deflagrada em fevereiro deste ano.
Na ocasião, a Polícia Civil do Amazonas realizou a ação com o objetivo de desarticular uma organização criminosa com atuação interestadual, investigada por tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, corrupção e desvio de recursos públicos. Coordenada pelo 24º DIP, com apoio de forças de segurança de outros seis estados, a operação resultou na prisão de diversos suspeitos, entre eles servidores públicos, ex-assessores parlamentares e integrantes da estrutura administrativa municipal, incluindo uma servidora Anabela Cardoso, coordenadora do gabinete pessoal de David Almeida, apontada como responsável por movimentar cerca de R$ 1,5 milhão para a facção por meio de empresas de fachada.

Anabela Cardoso, uma das pessoas de confiança de David Almeida, foi presa na operação Foto: Reprodução)
As investigações também apuram a existência de um possível “núcleo político” associado ao grupo criminoso. O prefeito David Almeida criticou a operação, questionando sua efetividade, enquanto o caso ganhou repercussão nacional e segue em andamento.

Genro do prefeito aparece em esquema de compra de votos, aponta perícia da Polícia Federal (Foto: Arquivo Familiar)
Soma-se a isso denúncias relacionadas à suposta compra de votos em ambientes religiosos, reveladas neste mês, quando a Polícia Federal concluiu a perícia em celulares apreendidos durante investigação sobre suspeita de irregularidades nas eleições municipais de 2024 em Manaus. O material aponta o envolvimento de lideranças religiosas e cita o nome de Gabriel Alexandre da Silva Lima, genro do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), como articulador do esquema.
Resposta
Durante a entrevista, David também minimizou esses episódios. Sobre a operação Erga Omnes, que envolveu uma assessora de sua gestão, classificou a ação policial como desconectada de sua administração e reiterou a defesa da auxiliar. O prefeito afirmou ainda que tentativas de associá-lo a irregularidades fariam parte de estratégias de adversários políticos para desgastar sua imagem.
