A vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) reduziu em quase 50% a circulação dos principais tipos do vírus entre jovens brasileiros. O resultado é da pesquisa Pop-Brasil, considerada o maior estudo sobre a eficácia da vacina contra o HPV já realizado na América Latina.
O levantamento comparou dados coletados antes e depois da introdução da vacina no calendário nacional e mostrou uma queda significativa nas infecções pelos quatro principais tipos do vírus combatidos pelo imunizante. Entre 2016 e 2017, cerca de 15% dos jovens analisados estavam infectados por pelo menos um desses subtipos. Já entre 2020 e 2023, esse percentual caiu para 7,95%, praticamente a metade.
O estudo foi desenvolvido pelo Hospital Moinhos de Vento, em parceria com o Ministério da Saúde, e envolveu mais de 16 mil participantes. Na primeira etapa, foram avaliadas 6.388 pessoas que ainda não haviam sido vacinadas. Na segunda fase, participaram mais de 10 mil jovens, entre vacinados e não vacinados, com amostras coletadas em unidades de saúde de diferentes regiões do país.
Segundo a médica epidemiologista e coordenadora da pesquisa, Eliana Wendland, os pesquisadores escolheram analisar jovens entre 16 e 25 anos porque essa é a faixa etária com maior incidência de infecção pelo HPV, já que corresponde ao início da vida sexual. Além disso, são pessoas que já deveriam ter recebido a vacina.
Apesar dos resultados positivos, a pesquisa chama atenção para um desafio importante: a cobertura vacinal ainda está abaixo do ideal. Entre as mulheres participantes, 61,8% haviam sido vacinadas. Entre os homens, o índice foi de apenas 31,1%, enquanto a meta do Ministério da Saúde é alcançar 90% de cobertura.
Os benefícios da vacinação ficaram ainda mais evidentes entre as mulheres. Antes da vacinação, a presença dos tipos de HPV protegidos pela vacina era de 15,6%. Entre as participantes vacinadas, esse número caiu para 3,1%, demonstrando a alta eficácia do imunizante.
Outro dado considerado importante pelos pesquisadores foi a identificação do chamado efeito rebanho. Mesmo mulheres que não receberam a vacina apresentaram redução na circulação dos principais tipos do vírus. Isso acontece porque, quando uma parcela significativa da população está imunizada, a transmissão do HPV diminui, protegendo também quem ainda não foi vacinado.
Entre os homens vacinados, a prevalência dos subtipos do HPV cobertos pela vacina caiu de 13,8% para 4,6%. Já entre aqueles que não receberam o imunizante, a pesquisa não identificou redução significativa, resultado atribuído à baixa adesão desse público à vacinação.
Outro aspecto que chamou a atenção dos pesquisadores é que, enquanto a circulação dos quatro tipos de HPV prevenidos pela vacina caiu de forma expressiva, a presença do vírus em geral (considerando todos os seus subtipos) aumentou de 46,7% para 56,6% entre as duas fases do estudo. Segundo os especialistas, isso reforça que a vacina é altamente eficaz justamente contra os tipos mais perigosos, responsáveis pela maioria dos casos de câncer relacionados ao HPV.
A pesquisa também trouxe uma boa notícia sobre o esquema vacinal adotado atualmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os resultados indicam que uma única dose oferece proteção semelhante aos antigos esquemas de duas ou três aplicações, reforçando a segurança da estratégia utilizada pelo Ministério da Saúde.
A vacina contra o HPV passou a ser oferecida pelo SUS em 2014, inicialmente para meninas. Em 2017, a imunização foi ampliada para os meninos e, desde 2024, o esquema foi simplificado para dose única em crianças e adolescentes de 9 a 14 anos. O imunizante também é disponibilizado para alguns grupos adultos considerados mais vulneráveis.
O HPV é uma das infecções sexualmente transmissíveis mais comuns no mundo e está diretamente relacionado ao desenvolvimento do câncer do colo do útero, além de poder causar tumores no pênis, ânus, boca e garganta. Por isso, especialistas reforçam que a vacinação continua sendo a forma mais eficaz de prevenção.

