O Sou Manaus Passo a Paço voltou ao centro do debate sobre as prioridades da política cultural da capital amazonense. Enquanto a Prefeitura de Manaus defende o festival como instrumento de democratização do acesso à cultura, os recursos destinados ao evento e a ausência de ações permanentes com alcance semelhante nos bairros alimentam críticas sobre o modelo adotado pela gestão municipal.
O diretor-presidente da ManausCult, Márcio Braz, rejeita a ideia de que os investimentos representem apenas custos para os cofres públicos. “Quem fala que a cultura é custo tem que perguntar a essas milhares de pessoas se elas vieram para cá porque acreditam que é custo. Não. Elas sabem que é investimento”, afirmou. Segundo ele, o festival permite que a população tenha acesso gratuito a artistas que, em outras circunstâncias, parte do público não teria condições de acompanhar.
O debate, porém, vai além da realização de grandes shows. Críticos do modelo questionam a concentração de recursos em eventos de poucos dias diante da necessidade de políticas culturais contínuas, principalmente nas periferias. A cobrança envolve maior oferta de equipamentos, projetos permanentes de formação, incentivo à produção artística e mecanismos de financiamento capazes de alcançar os fazedores de cultura durante todo o ano.
Os gastos do festival também entraram na mira dos órgãos de controle. O Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) determinou a instauração de Tomada de Contas Especial para apurar despesas relacionadas ao evento. Conforme os dados apresentados no material que embasa a investigação, os valores liquidados teriam passado de cerca de R$ 2 milhões para mais de R$ 25 milhões em poucos anos, crescimento superior a 1.100%. O Ministério Público de Contas também apontou problemas na disponibilização de informações sobre os gastos.
A discussão se amplia diante do crescimento dos recursos administrados pela ManausCult. Dados citados no levantamento indicam que as despesas liquidadas da fundação chegaram a R$ 156,2 milhões, com expansão de 361% em quatro anos. O Sou Manaus movimenta o Centro Histórico, oferece lazer gratuito e pode gerar renda para trabalhadores durante sua realização, mas os números reforçam a discussão sobre quanto do orçamento cultural de Manaus é destinado a grandes eventos e quanto efetivamente chega a projetos permanentes, artistas locais e comunidades fora do circuito das grandes festas.
