“Mal sabia eu que todo o meu pesadelo começaria ali, na sala de parto”. A frase de Priscilla Ross Coelho resume o trauma que viveu ao dar à luz seu primeiro filho, em 2011, em Manaus. Em entrevista ao Diário da Capital, ela relata em detalhes como sofreu uma série de abusos e negligências durante o trabalho de parto; um caso que expõe as falhas graves e persistentes no atendimento obstétrico no Brasil.
Segundo dados preliminares do estudo “Nascer no Brasil 2”, conduzido pela Fiocruz entre 2020 e 2023, 45% das 24 mil mulheres entrevistadas em 465 maternidades do país relataram ter sofrido algum tipo de violência obstétrica. Isso inclui desde tratamento desrespeitoso até intervenções médicas sem consentimento.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define esse tipo de violência como a apropriação do corpo da mulher e dos seus processos reprodutivos por profissionais de saúde, por meio de condutas desumanizadas e da restrição da autonomia da paciente.
O caso de Priscilla ilustra bem essa realidade: “Comecei a ter contrações no fim da tarde do dia 26 de novembro de 2011. Escolhi a maternidade Nazira Daou com medo de ser maltratada em outras, mas lá me informaram que não havia vaga”. Mesmo com contrações intensas, ela teve que buscar outra unidade. “Fomos ao Instituto da Mulher. Eu estava fraca, sem me alimentar há mais de 12 horas. A cada toque sentia mais dor”.
Ao longo do atendimento, Priscilla diz ter sido submetida a procedimentos sem consentimento e sem explicações adequadas. “Estouraram minha bolsa, aplicaram a ocitocina sem me avisar e eu perdi o controle do meu corpo. Perguntei o que tinham feito, mas ninguém me respondeu”.
O ápice do sofrimento veio no momento do parto. “Vi meu esposo presenciar a médica fazendo um corte com a tesoura, sem me dizer nada. Hoje sei que aquilo foi uma episiotomia. Meu filho nasceu, mas a dor continuava. A médica mandou eu fazer força para a placenta sair, mesmo eu dizendo que não conseguia mais”.
Anos se passaram até que, em uma consulta no Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), Priscilla recebeu o diagnóstico: lesão anal provocada por politraumatismo decorrente da episiotomia mal realizada. O tratamento exigiu múltiplas cirurgias e o uso prolongado de bolsa de colostomia.
“Foram anos usando fraldas, passando por cirurgias, sem conseguir trabalhar. Tive febre, infecções, dores constantes. E tudo isso começou por causa de um parto que deveria ter sido um momento de alegria”, relata.
Diante de tantas dificuldades, Priscilla buscou apoio no coletivo Humaniza, que atua como uma rede de acolhimento e orientação para mulheres em situações semelhantes. “Encontrei força quando percebi que não era a única. Muitas mulheres passaram — e ainda passam — por isso em silêncio”.
A Associação Humaniza, organização sem fins lucrativos, tem como missão promover a autonomia feminina e lutar pelos direitos das mulheres, especialmente no contexto da maternidade e do parto. Entre seus principais objetivos estão:
- prevenir e erradicar a violência obstétrica;
- promover a autonomia da mulher em diversas esferas, como trabalho, maternidade, sexualidade e relações sociais;
- apoiar e difundir uma cultura de maternidade consciente e respeito à infância;
- assegurar o direito das mulheres a uma vida livre de violência em todas as suas formas;
- combater toda forma de discriminação e violência contra as mulheres.
Casos como o de Priscilla revelam que a violência obstétrica não é exceção, mas um reflexo de uma estrutura que ainda falha em respeitar os direitos reprodutivos e a dignidade das mulheres. A pesquisa da Fiocruz aponta para a necessidade urgente de políticas públicas eficazes, formação contínua de profissionais de saúde e garantia de escuta ativa às mulheres que enfrentam essas situações.
Para Priscilla, a denúncia é um ato de resistência. “A vitória no meu primeiro processo foi muito significativa, e posso dizer que abriu portas para outras mulheres buscarem denunciar a violência que sofreram. Eu diria a todas as mulheres que não desistam , pois só assim a nossa voz pode ser ouvida”.


