Um estudo de pesquisadores da Universidade de Brasília (Unb), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de São Paulo (USP) aponta que o transporte público no Brasil poderia se tornar gratuito se empresas contribuíssem para um fundo específico, substituindo o sistema atual de vale-transporte. A proposta se inspira no modelo francês Versement Mobilité e promete custear a gratuidade sem criar novos impostos ou depender de recursos federais.
Como funcionaria
Empresas com mais de 10 funcionários em cidades com mais de 50 mil habitantes pagariam uma contribuição mensal de cerca de R$ 250 por empregado, enquanto pequenas empresas com até nove funcionários seriam isentas. Segundo Thiago Trindade (UnB), “a gente tem como fazer um programa de tarifa zero sem onerar o orçamento da União”, afirmou.
A proposta prevê também que a remuneração das empresas de transporte se baseie na quilometragem, na oferta de frota e na qualidade do serviço, em vez do número de passageiros transportados.
“O que a gente está propondo é uma reformulação desse modelo. Ao invés da empresa pagar para o trabalhador, a empresa vai pagar para um fundo”, explicou Trindade.
Impactos e benefícios
Os pesquisadores estimam que a gratuidade beneficiaria 124 milhões de pessoas em 706 cidades, com custo anual de R$ 78 bilhões, próximo ao gasto atual do país com transporte público. Eles destacam que o primeiro efeito imediato seria que “as pessoas que andam com transporte coletivo vão deixar de gastar o dinheiro com a passagem e esse dinheiro vai movimentar a economia”, afirmou Trindade.
Cenário do transporte público em Manaus
No estudo, Manaus é destacada como um exemplo da crise de mobilidade e do crescente uso de subsídios, reflexo da queda acentuada no número de passageiros do transporte público. Entre 2013 e 2023, o número de passageiros no transporte municipal caiu de 263 milhões para 136 milhões.
Diante disso, o número de veículos particulares aumentou. Segundo dados mais recentes do Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM), a capital amazonense atingiu em abril de 2025 a marca histórica de 1.004.021 veículos registrados. Desse total, 455.608 são automóveis e 337.464 são motocicletas.
Para manter o sistema funcionando, Manaus já subsidia cerca de 60% do valor da passagem. Outras capitais também apresentam altos percentuais de subsídio:
- Brasília (75%);
- Goiânia (66%);
- São Paulo (58%).
A mudança neste sistema, de acordo com o estudo, poderia incentivar o uso do transporte coletivo em vez de veículos individuais, diminuindo acidentes de trânsito e trazendo impactos ambientais positivos.
Veja o estudo na íntegra:
