Saúde

Estudo aponta que musculação vai além dos músculos e pode ‘reprogramar’ o fígado

Pesquisa mostra que o treinamento de força provoca alterações epigenéticas que ajudam a proteger o órgão contra inflamação, gordura acumulada e resistência à insulina

Escrito por Redação
4 de julho de 2026
Foto: Musculação pode reprogramar genes do fígado e melhorar a saúde metabólica - Foto: Divulgação

Um estudo desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) indica que os benefícios da musculação ultrapassam o ganho de massa muscular e a redução de gordura corporal. Em experimentos com camundongos, pesquisadores observaram que o treinamento de força promove uma espécie de reprogramação molecular no fígado, capaz de influenciar o funcionamento do genoma e mitigar a doença hepática esteatótica, condição marcada pelo acúmulo de gordura no órgão e associada ao desenvolvimento do diabetes tipo 2.

“Queríamos entender como algo que ocorre nos músculos poderia interferir e beneficiar um problema no fígado. Para isso, fomos investigar o cerne do metabolismo, que é o nosso DNA”, explica Leandro Pereira de Moura, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp e coordenador do estudo, em entrevista à Agência FAPESP. “O objetivo foi compreender como a obesidade agride esse DNA e como a musculação consegue protegê-lo.”

Publicado na revista Life Sciences, o trabalho contou com apoio da FAPESP e investigou mecanismos epigenéticos, alterações que não mudam a sequência do DNA, mas influenciam a forma como os genes são ativados ou desativados.

Um dos principais focos foi a metilação do DNA, processo em que pequenas moléculas químicas se ligam a regiões reguladoras dos genes, reduzindo sua atividade. Os pesquisadores observaram que oito semanas de treinamento de força foram suficientes para alterar a metilação do gene MTCH2, ligado ao metabolismo energético do fígado.

Segundo o estudo, a obesidade cria um ambiente de estresse no órgão, com acúmulo de gordura nas células hepáticas, inflamação crônica e falhas nas mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia. Esse quadro favorece a progressão de danos como a fibrose e a perda gradual da função hepática.

Nos animais treinados, os cientistas identificaram uma resposta paradoxal: apesar de o fígado ainda emitir sinais genéticos para ativar o MTCH2, a produção final da proteína associada ao gene diminuiu. A interpretação é que o exercício reduziu a inflamação e restaurou a capacidade energética do órgão, eliminando o “estado de alerta” celular.

Outro achado importante foi a melhora na sensibilidade à insulina. Em condições normais, o fígado responde ao hormônio controlando a liberação de glicose no sangue. Na obesidade, esse mecanismo falha, levando à resistência à insulina e ao aumento da glicemia. Nos camundongos submetidos ao treinamento de força, essa comunicação metabólica foi parcialmente restabelecida.

Além disso, os resultados indicam que a atividade física reduziu processos ligados à fibrose hepática e ao crescimento celular desordenado, ao mesmo tempo em que aumentou a produção de proteínas associadas à geração de energia mitocondrial.

“Levantar pesos fortalece não só os músculos, mas também controla como o DNA do fígado funciona”, resume o pesquisador.

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