No Dia da Imigração Japonesa, celebrado em 18 de junho, é lembrada a chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao Brasil, em 1908, além da contribuição da comunidade nipo-brasileira para a formação cultural e o desenvolvimento do país. Mais de um século depois, a influência japonesa permanece presente em diversos aspectos da sociedade brasileira.
No Amazonas, onde vivem cerca de 50 mil descendentes de japoneses, tradições, costumes e valores seguem sendo preservados por diferentes gerações. Um dos representantes dessa comunidade é Ken Nishikido, diretor educacional da Associação Nipo-Brasileira da Amazônia Ocidental (Nippaku).
Em entrevista ao Diário da Capital, ele relembrou sua trajetória desde a chegada ao Brasil e falou sobre os desafios de adaptação à nova cultura, além da importância de manter vivas as raízes japonesas na região. Ken Nishikido contou que a viagem teve início no Japão e durou mais de um mês. Segundo ele, foram 33 dias atravessando o Oceano Pacífico até o desembarque em território brasileiro.
“Saímos no fim de setembro e chegamos ao Brasil no início de novembro. Primeiro desembarcamos em Belém, onde passamos uma noite, e depois seguimos viagem de barco até Manaus. Naquela época, o trajeto era mais demorado. Chegamos ao Porto de Manaus no dia 9 de novembro de 1958”, relembrou.
Ao falar sobre os primeiros anos no Amazonas, Nishikido destacou que o processo de adaptação foi um dos maiores desafios enfrentados pelos imigrantes japoneses. Segundo ele, a realidade encontrada era bastante diferente da que a família conhecia no Japão.
“Processo de adaptação é uma coisa séria. No Japão nós tínhamos casa, água encanada e energia elétrica. Quando chegamos à comunidade, só havia mata e uma pequena área já desmatada. Ficamos algum tempo em alojamentos providenciados pelo governo, mas durante muitos anos não tivemos energia elétrica e a água vinha do igarapé”, recordou.
Além das dificuldades estruturais, a alimentação também exigiu mudanças. Nishikido conta que os ingredientes tradicionais da culinária japonesa eram escassos, levando as famílias a adaptar receitas com produtos encontrados na região amazônica.
“A comida japonesa era muito diferente da brasileira. As mães e donas de casa precisaram improvisar e utilizar os ingredientes que existiam aqui para preparar pratos parecidos com os que conhecíamos no Japão”, explicou.
Apesar do estranhamento inicial, ele lembra que os imigrantes acabaram incorporando novos hábitos alimentares. “Quando chegamos, nos disseram que aqui havia comida de primeira. Depois conhecemos a feijoada e outras comidas brasileiras. Era algo completamente diferente do que estávamos acostumados, mas acabamos gostando muito”, afirmou.
Artes marciais
Além dos desafios de adaptação, Nishikido destacou a contribuição da comunidade japonesa para a disseminação de tradições culturais no Brasil, especialmente por meio das artes marciais.
Segundo ele, modalidades como judô, kendô e sumô foram introduzidas e fortalecidas no país graças à atuação dos imigrantes e seus descendentes. Entre elas, o judô se consolidou como uma das mais populares, alcançando reconhecimento internacional e rendendo importantes conquistas ao esporte brasileiro.
Para Nishikido, a modalidade vai além da competição, sendo também uma ferramenta de formação pessoal baseada em princípios como disciplina, respeito e autocontrole.
“O judô ensina a utilizar a força do adversário para derrubá-lo. É uma arte marcial que trabalha não apenas o aspecto físico, mas também o caráter”, afirmou.
Ele também ressaltou a importância do kendô, arte marcial inspirada no manejo da espada japonesa, e do sumô, prática tradicional que possui forte significado cultural no Japão. De acordo com Nishikido, a preservação dessas atividades ajudou a manter vivas as raízes da comunidade japonesa e contribuiu para aproximar diferentes culturas ao longo das gerações.
Aprendizado
Ken Nishikido deixou uma mensagem voltada às futuras gerações, priorizando valores que considera essenciais e que, segundo ele, não devem ser esquecidos com o passar do tempo.
Para o diretor educacional, a cultura japonesa carrega ensinamentos importantes relacionados à honestidade, à dignidade e ao respeito pelo bem coletivo. Ele ressaltou ainda a importância de valorizar e preservar o patrimônio público, entendendo que ele pertence a toda a sociedade.
“Precisamos preservar a honestidade, a dignidade e aprender a cuidar daquilo que é de todos. Muitas vezes as pessoas pensam que o patrimônio público não lhes pertence, mas ele também é nosso e deve ser respeitado”, afirmou.
Segundo Nishikido, esses princípios continuam sendo transmitidos às novas gerações por meio da educação e das atividades desenvolvidas pela comunidade nipo-brasileira, com o objetivo de fortalecer valores que contribuam para uma sociedade mais consciente e responsável.
