Meio Ambiente

“Tudo era água do rio”: comunidade ribeirinha é beneficiada por projeto que dá acesso à água potável e saneamento básico na RDS do Tupé 

O projeto do UNICEF e parceiros atende 13 escolas, dentre elas a Escola Municipal São João, na RDS do Tupé, beneficiando, ao todo, 5.547 crianças e adolescentes com acesso à água potável, saneamento e kits de higiene menstrual

Escrito por Camila Seixas
31 de outubro de 2025
Foto: Maria Moraes

“Tudo era água do rio. Na época era pote de água que a gente usava. Todos os dias a gente enchia e coava a água que a gente ia beber, e o que era pra usar na alimentação a gente fervia.” O relato é de Cleiciane de Souza Santos, 40 anos, presidente da comunidade São João do Tupé, e mostra como era a realidade dos moradores, há trinta anos, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, zona Rural de Manaus. Uma rotina marcada por dificuldades, improvisos e riscos à saúde. 

Comunidade São João do Tupé — Foto: Renata Barreiros

A RDS do Tupé é distante aproximadamente 25 km em linha reta do centro da capital amazonense. Situada à margem esquerda do rio Negro, a região compõe a bacia Amazônica, a maior bacia hidrográfica do planeta. E essa imensidão foi, por muitos anos, o refúgio dessa comunidade, que desconhecia água tratada, pronta para consumo. 

Entretanto, em 2024, Cleiciane viu essa realidade mudar. A garantia de acesso à água segura e promoção de práticas de higiene e dignidade menstrual nas escolas foi possível com a chegada do Programa de Água, Saneamento e Higiene (WASH). O projeto foi implementado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em parceria com a empresa WEG, com apoio da Prefeitura de Manaus e da concessionária Águas de Manaus. 

💧 Na comunidade São João do Tupé, o projeto beneficiou diretamente a Escola Municipal São João, onde estudam 47 alunos, da Educação Infantil ao 9º ano.

Escola São João, na RDS do Tupé — Foto: Maria Moraes 

Paulo Diógenes, oficial de Água, Saneamento e Higiene do UNICEF Brasil em Manaus, explica como o projeto fortalece o papel da escola como espaço protetivo e de promoção da saúde. 

A ideia, primeiro, é levar conhecimento seguro e baseado em evidência sobre saneamento básico e sobre dignidade menstrual. É fomentar essa discussão, é fazer com que as pessoas, principalmente as crianças e os adolescentes, entendam a importância dessas temáticas. Mas também é entender ali dentro da política pública como fazer com que gargalos como a falta de recursos, de chegar nas escolas, sejam superados”, disse. 

Os resultados da iniciativa vão além da infraestrutura e da conscientização ambiental. Atualmente, o projeto está presente no bairro Colônia Antônio Aleixo, na zona Leste da capital, e na RDS do Tupé, beneficiando 13 escolas e alcançando cerca de 5.547 crianças e adolescentes, além de 434 profissionais da educação. 

A gerente de responsabilidade social da Águas de Manaus, Simone Dias, reforça o papel humanitário da iniciativa. “A falta de saneamento básico impacta diretamente na saúde e na educação. Quando não se tem saneamento, há doenças. É uma questão de saúde pública e também de preservação ambiental. Esse projeto mostra como a união entre instituições pode gerar mudanças reais”, afirma.

Ela explica que a parceria entre o UNICEF e o grupo Aegea, do qual a Águas de Manaus faz parte, também atua em cidades como Caucaia (CE) e Barcarena (PA), levando soluções semelhantes para escolas rurais e ribeirinhas.

Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, na zona Rural de Manaus — Foto: Renata Barreiros

Garantia de direitos e futuro 

A transformação vivida em São João do Tupé reflete um desafio mais amplo. No mundo, o acesso à água potável e ao saneamento é um direito humano reconhecido pelas Nações Unidas desde 2010, essencial para a promoção da saúde, da educação e da redução das desigualdades.

No entanto, no Amazonas, os desafios ainda são preocupantes: segundo dados do UNICEF divulgados em janeiro deste ano, 3,5% e 11,3% das crianças e adolescentes de 0 a 17 anos estavam, respectivamente, em pobreza intermediária e extrema no acesso à água em 2023. Para saneamento, os índices sobem para 36,7% e 23,5%. 

Imagem: Gemini

Transformação estrutural 

Para enfrentar essa desigualdade na prática, o projeto promoveu uma transformação estrutural na escola, que recebeu: 

  • um sistema de bombeamento solar; 
  • filtros e refis para bebedouros; 
  • reforma dos banheiros; 
  • troca de torneiras. 

🚰 Agora, os alunos e professores têm acesso à água potável de forma contínua, mesmo durante períodos de falta de energia.

Para a diretora da Escola Municipal São João, Edilane Batista, as placas solares entregues pelo projeto representam um grande avanço para a comunidade escolar. “As placas solares ficam bem na frente da escola e trazem um benefício indescritível. Quando falta energia, conseguimos manter as aulas porque a água continua chegando”, conta. 

Placas solares entregues para a Escola Municipal São João, no Tupé — Foto: Maria Moraes

Além disso, Edilane também destaca a mudança de comportamento dos alunos. “Trabalhamos com todos, alunos e pais, a importância da higiene e dos bons hábitos. A sensibilização foi um dos maiores ganhos”, afirma. 

Mudanças climáticas e sustentabilidade 

Além de melhorar o acesso à água e ao saneamento, a iniciativa também tem foco nos impactos ambientais. O oficial do UNICEF explica que o projeto incorpora soluções sustentáveis para enfrentar os efeitos das secas e enchentes na Amazônia.

“Algumas escolas ribeirinhas foram fortemente impactadas pelas secas de 2023 e 2024. Quando falta energia, falta água. Por isso, o sistema de bombeamento solar é essencial: ele garante que, mesmo sem energia elétrica, as escolas continuem abastecidas. Essa tecnologia é uma resposta direta aos desafios climáticos da região”, afirma Paulo. 

RDS do Tupé, em 2025 — Foto: Renata Barreiros 

Dignidade menstrual 

Dentro dessa abordagem de saúde e bem-estar, a iniciativa também promove oficinas e distribuição de kits de higiene para pessoas que menstruam. Hoje, o projeto trabalha com todas as escolas ribeirinhas da Calha do Rio Negro e do Rio Amazonas, no município de Manaus.   

De acordo com dados do Programa Dignidade Menstrual, do Governo Federal, 1 em cada 4 meninas falta à escola no Brasil durante a menstruação, o que gera prejuízos à sua aprendizagem. 

Segundo o UNICEF, pessoas ainda utilizam materiais impróprios para absorver o sangue menstrual, como panos sujos e jornais, o que pode resultar em doenças e infecções urogenitais, câncer de colo de útero ou Síndrome do Choque Tóxico. No Brasil, 33% das mulheres já usaram papel higiênico no lugar do absorvente. 

Distribuidores de absorventes foram instalados no banheiro da escola — Foto: Maria Moraes

Cleiciane ainda lembra das dificuldades enfrentadas, na época, para ir à escola durante seu período menstrual.A gente não tinha onde comprar absorvente. Usava o que nossa mãe ensinava: pano, que lavava e guardava. Era muito difícil”, relata. 

Atualmente, com a instalação de distribuidores de absorventes no banheiro da instituição de ensino, a mãe de duas meninas reconhece a mudança no dia a dia. “Hoje, com o projeto, as meninas que não têm condições recebem ajuda da escola. Isso muda a vida delas.”

De acordo com o UNICEF, 2.696 pessoas que menstruam foram alcançadas no Amazonas com informação de qualidade e beneficiadas com kits de higiene menstrual nas 13 unidades de ensino beneficiadas pelo projeto.

Esperança renovada no Tupé

Anos depois de depender da água do rio para tudo, Cleiciane vê as filhas crescendo com acesso à água limpa, banheiros adequados e apoio durante a menstruação, como símbolo de avanço e dignidade. 

“Hoje eu falo pra elas: vocês têm tudo. Antes a gente desafiava a nossa própria saúde. Agora temos água, energia solar e um futuro melhor. O projeto trouxe esperança pra nós e pras próximas gerações”, diz, orgulhosa.

Felícia e a mãe, Cleiciane; ambas celebram o projeto em frente à escola — Foto: Maria Moraes

O UNICEF afirma que o projeto deve ser expandido, nos próximos anos, para mais comunidades ribeirinhas da Amazônia e regiões do Brasil. 

Estamos trabalhando com escolas ribeirinhas das calhas do Rio Negro e do Rio Amazonas, e existe a possibilidade de levar o projeto para outros municípios e estados da Amazônia, já que se trata de uma iniciativa nacional,” conclui Diógenes. 

Assista a seguir ao documentário produzido pelo Diário da Capital na RDS do Tupé:

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