Amazonas

Urnas milenares revelam práticas funerárias e engenharia indígena no interior do AM

Descoberta feita por comunitários em Fonte Boa levou a escavações que identificaram urnas funerárias de povos originários na várzea do Médio Solimões

Escrito por Redação
15 de junho de 2025
Fotos: Instituto Mamirauá

Sete urnas funerárias de origem indígena, duas delas de grande porte, foram descobertas sob as raízes de uma árvore tombada em uma área de várzea no município de Fonte Boa, no Amazonas. O achado, ocorrido em outubro de 2024 por comunitários locais, levou à realização de escavações arqueológicas em janeiro de 2025, conduzidas por pesquisadores do Instituto Mamirauá. 

A descoberta revela detalhes inéditos sobre práticas funerárias e modos de ocupação ancestral na região do Médio Solimões.

Segundo o arqueólogo Márcio Amaral, o sítio arqueológico, identificado como Lago do Cochila, integra um conjunto de ilhas artificiais erguidas por povos originários para permitir habitação em áreas alagáveis. 

“Essas ilhas artificiais são estruturas arqueológicas levantadas em áreas de várzea mais altas, com material removido de outras partes e misturado com fragmentos cerâmicos, intencionalmente posicionados para dar sustentação”, explicou. “É uma técnica de engenharia indígena muito sofisticada, que mostra um manejo de território e uma densidade populacional expressiva no passado”, acrescentou. 

Urnas estavam sob raízes de uma árvore tombada em uma área de várzea de Fonte Boa. — Foto: Instituto Mamirauá

Achados arqueológicos 

As urnas foram encontradas a cerca de 40 centímetros de profundidade, provavelmente sob antigas moradias. Em seu interior, arqueólogos identificaram fragmentos de ossos humanos, peixes e quelônios, sugerindo que práticas funerárias estavam associadas a rituais alimentares. As peças, que não apresentavam tampas cerâmicas, podem ter sido seladas com materiais orgânicos hoje decompostos.

A escavação representou um marco logístico e técnico. Devido à localização elevada e de difícil acesso, foi necessário construir uma plataforma suspensa de madeira e cipó, além de utilizar métodos artesanais de transporte fluvial para levar as urnas até Tefé, sede do Instituto Mamirauá. 

O trajeto de transporte durou cerca de 12 horas e envolveu embarcações pequenas, acampamentos e um cuidado meticuloso na proteção do material.

Análise do material 

O material cerâmico recolhido está em análise no laboratório, em Tefé, e pode representar uma tradição ainda não catalogada. Entre os elementos destacados estão fragmentos com engobos, faixas vermelhas e uso de argila esverdeada, característica rara na região. Esses dados podem contribuir para uma revisão das classificações cerâmicas amazônicas e sugerem um horizonte multicultural mais complexo do que o conhecido até agora.

A descoberta reforça a presença contínua e adaptada de populações indígenas em áreas de várzea, contrariando a visão de que esses ambientes eram ocupados apenas de forma esporádica. Além disso, evidencia que a proteção do patrimônio arqueológico na Amazônia depende cada vez mais da valorização do conhecimento local e da integração com as comunidades que habitam e manejam esses territórios.

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