Saúde

Setembro Verde destaca importância da doação de órgãos, mas Amazonas ainda enfrenta limitações

Enquanto campanha nacional reforça a solidariedade na doação de órgãos, o Amazonas realiza transplantes apenas de rins e córneas; estado deve iniciar transplante de fígado até o fim de 2025

Escrito por Clara Gentil
2 de setembro de 2025
Foto: Divulgação

Com o objetivo de conscientizar a população sobre a importância da doação de órgãos, a campanha Setembro Verde ganha destaque neste mês em todo o país. Entretanto, no Amazonas, os procedimentos ainda são limitados: o estado realiza a captação de fígado, rins, córneas, mas apenas rins e córneas são efetivamente transplantados dentro do território amazonense.

Um avanço significativo nesse cenário é representado pelo Hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz, em Manaus, que desde 2023 passou a realizar transplantes renais. A unidade já contabiliza 202 cirurgias desse tipo, número que representa um salto expressivo quando comparado ao período anterior, em que o serviço só era acessível por meio do Tratamento Fora de Domicílio (TFD). 

O hospital triplicou a capacidade de atendimento local, passando de cerca de 30 para 100 transplantes por ano.

Em anúncio recente, no dia 21 de agosto, o governador Wilson Lima (União Brasil) informou que o Amazonas deve iniciar até o fim de 2025 o transplante de fígado, procedimento que já recebeu aprovação do corpo clínico do Hospital Delphina Aziz. Segundo ele, esse avanço é resultado da ampliação da rede hospitalar iniciada em 2019. “Já realizamos mais de 200 transplantes de rim. Agora, vamos dar início ao transplante de fígado, que já está autorizado“, afirmou o governador.

Cenário nacional 

No cenário nacional, o Brasil alcançou um recorde histórico em 2024, com mais de 30 mil transplantes realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), número 18% maior em comparação com 2022. Os dados foram apresentados pelo Ministério da Saúde no dia 4 de junho, durante coletiva em Brasília.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou a importância do trabalho conjunto para alcançar esse resultado. “Temos que celebrar esse recorde. É a reafirmação do Brasil como o país que mais realiza transplantes em sistema público de saúde no mundo”, declarou.

Apesar dos avanços, a demanda ainda é alta: cerca de 78 mil pessoas aguardam na fila por um transplante no Brasil. Os órgãos mais demandados são: 

  • rins (42.838);
  • córnea (32.349);
  • fígado (2.387). 

Já os mais transplantados foram:

  • córnea (17.107);
  • rins (6.320);
  • medula óssea (3.743);
  • fígado (2.454).

Tratamento Fora de Domicílio: desafios enfrentados por paciente do Amazonas

O Tratamento Fora de Domicílio (TFD) é um programa do Sistema Único de Saúde (SUS), que garante assistência médica e ajuda de custo a pacientes que precisam de tratamentos de média e alta complexidade indisponíveis no seu município de origem. A iniciativa abrange tanto o tratamento intraestadual quanto o interestadual, cobrindo despesas com transporte e auxílio para a permanência de pacientes e acompanhantes em outra localidade.

Foi por meio do TFD que a amazonense Núbia Maria Santarém Frank, de 64 anos, conseguiu realizar o transplante renal em janeiro de 2013 em Fortaleza, no Ceará, após viver por mais de uma década com o diagnóstico de insuficiência renal, recebido em 1999.

“Na época até tinha [transplante], mas só pra doador vivo. O processo foi bem dentro da normalidade pra primeira consulta. A segunda consulta foi mais complicada, eu tive que dar uma ajuda pra que fosse marcada”, contou Núbia, ressaltando que mesmo dentro de um programa estruturado, ainda existem entraves no acesso ao atendimento.

Com deslocamento para outro estado de três em três meses, para acompanhamento médico, ela também compartilhou os impactos da experiência na sua vida cotidiana. “Tenho disponibilidade devido a não ser empregada. A parte difícil é mesmo financeira, já que a ajuda de custo está muito defasada”, afirmou. 

Rayanna Frank, filha de Núbia e sua acompanhante durante o tratamento, destacou os procedimentos exigidos pelo programa. “Tem a prestação de contas que a gente faz com o TFD. Cerca de duas semanas antes da viagem, eles ligam para confirmar todos os dados, tanto do paciente quanto do acompanhante. Em caso de troca de acompanhante, tem que ser feita com um mês de antecedência”, explicou.

Ela também comentou sobre as limitações financeiras e a logística das viagens. “É uma viagem bem rápida, é para fazer só acompanhamento e voltar. Até porque, por ajuda de custo também, ela é muito baixa. Então, não tem nem condições de você ficar um pouco mais de tempo lá.

Apesar das dificuldades enfrentadas, Rayanna elogia o serviço prestado na unidade onde a mãe foi atendida. “O hospital é todo muito bem equipado, a equipe toda é muito bem preparada, é tudo muito bom, não tenho críticas nenhumas ao acompanhamento que é feito lá para ela.”

Para Núbia, o transplante significou renascimento: “Hoje tenho liberdade, me alimento melhor, faço atividades físicas… É como se eu tivesse nascido de novo”, concluiu. 

O Diário da Capital questionou, junto à Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), qual o valor atualizado da ajuda de custo oferecida pelo TFD, porém, não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação. 

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