Uma reportagem publicada com exclusividade pelo portal Metrópoles revelou que o Resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro, no norte do Paraná, e construído pela família do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, abriga um cassino com máquinas de apostas e mesas de jogos de cartas valendo dinheiro — prática proibida pela legislação brasileira. O empreendimento passou a ser associado a questionamentos sobre a atuação do ministro em processos sensíveis, como o caso envolvendo o Banco Master.
Segundo a apuração, o espaço destinado às apostas reúne máquinas eletrônicas semelhantes a caça-níqueis e mesas de jogos de cartas, incluindo blackjack, modalidade ilegal no país. Todas as apostas são realizadas com dinheiro. Na cidade, o empreendimento é conhecido informalmente como o “resort do Toffoli”.
Repórteres do Metrópoles se hospedaram no local nesta semana e constataram que, embora o nome de Dias Toffoli não apareça em registros oficiais do resort, funcionários do hotel se referem a ele como proprietário do empreendimento.
No fim de 2025, Toffoli fechou o resort para uma festa privada destinada a familiares e convidados. Àquela altura, o empreendimento já havia sido vendido por dois irmãos e um primo do ministro a um advogado ligado à J&F, grupo empresarial dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

Antes da transação, parte das ações do hotel havia sido adquirida por um fundo que tinha como investidor o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Dias Toffoli é relator, no STF, de investigação que envolve a instituição financeira e já atuou em processos relacionados à J&F.
Funcionários relataram à reportagem que o evento promovido por Toffoli mobilizou toda a equipe do resort e contou com a presença de artistas e do ex-jogador de futebol Ronaldo Nazário, o Fenômeno. Um funcionário chegou a publicar uma foto de Ronaldo no local, posteriormente apagada.
De acordo com relatos, durante a festa, Ronaldo teria inaugurado a área destinada aos jogos. O ex-atleta é jogador profissional de pôquer, modalidade legalizada no Brasil.
O cassino do Tayayá dispõe de 14 máquinas de vídeo loteria. Na prática, funcionam como caça-níqueis, embora sejam regulamentadas pelo governo do Paraná. O ambiente é caracterizado por iluminação artificial, carpetes e luzes de neon, em estética semelhante à de casas de apostas no exterior.
O Metrópoles esteve no local sem se identificar. Após o horário oficial de encerramento das atividades, às 23h, os repórteres foram convidados a participar de outros tipos de jogos, entre eles o blackjack. Nessa modalidade, o jogador disputa contra o “dealer” para que a soma das cartas se aproxime de 21. A prática de jogos de cartas com apostas em dinheiro, nesse formato, é ilegal no Brasil.
A reportagem também constatou ausência de controle de acesso ao espaço. Em duas ocasiões, crianças foram vistas utilizando as máquinas de apostas, em meio a adultos que consumiam bebidas alcoólicas.
Toffoli votou a favor das vídeo loterias no STF
Jogos de azar presenciais são proibidos no Brasil. Em 2020, no entanto, uma decisão do Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADPF nº 492, autorizou que estados explorem as chamadas “vídeo loterias” — nomenclatura técnica das máquinas disponíveis no Resort Tayayá.
Sob relatoria do ministro Gilmar Mendes, o STF entendeu que a União não detém exclusividade sobre a exploração desse tipo de atividade. Dias Toffoli acompanhou o voto do relator.
Apesar disso, jogos de azar com a presença de dealers e apostas em dinheiro, como partidas de blackjack, continuam proibidos pela legislação nacional.
Presença frequente do ministro e estrutura de alto padrão
Dias Toffoli frequenta regularmente o Resort Tayayá. O ministro dispõe de uma casa em uma área denominada Ecoview, reservada a hóspedes de alto padrão. Ele também tem acesso a uma embarcação atracada no píer do resort.
Outra residência dentro do complexo é utilizada por José Carlos Dias Toffoli, irmão do ministro. José Carlos e outro irmão, José Eugênio, foram sócios de uma incorporadora atualmente avaliada em R$ 30 milhões, responsável pela construção dos apartamentos do resort. Antes de ingressar no ramo hoteleiro, José Carlos atuava como padre.
Funcionários afirmam que outros ministros do STF já se hospedaram no local, entre eles Cármen Lúcia.
Localizado às margens da represa de Xavantes, próximo à divisa do Paraná com São Paulo, o resort cobra diárias que chegam a R$ 2 mil nas acomodações mais simples. A arquitetura rústica do empreendimento, segundo funcionários, agrada ao ministro, tratado internamente como “Zé”.
A estrutura de lazer inclui seis piscinas — três delas aquecidas —, quadras de tênis, beach tennis e atividades recreativas para crianças. O acesso aéreo exige logística específica: voo fretado até Ourinhos (SP), seguido de deslocamento em helicóptero.
Advogado nega irregularidades
Procurado pela reportagem, o advogado Paulo Humberto negou a existência de jogos ilegais no resort.
“Em relação à jogatina, os jogos existentes no Tayayá são autorizados pela loteria do estado. Quanto aos jogos de cartas, as mesas disponíveis são para diversão dos próprios hóspedes, que jogam de truco a pôquer. Não há interferência nem incentivo à jogatina”, afirmou.
O ministro Dias Toffoli não respondeu aos questionamentos enviados pelo Metrópoles.
