Temos mais uma fala preconceituosa exposta no meio do futebol e que ganhou destaque nacional, tendo em vista o tamanho do espaço social que tem o universo esportivo. O técnico do Internacional, Abel Braga, em sua primeira coletiva ao novo clube – que briga para não cair de divisão, expôs, entre tantas opiniões e histórias de superação, uma fala carregada do pensamento hostil e ultrapassado que ainda cerca quem está no futebol.
A seguinte aspa dele foi “Pô, eu não quero a porra do meu time treinando de camisa rosa, parece time de viado”, foi o relato do treinador ao elogiar o trabalho do diretor Andrés D’Alessandro e destacando não se tratar de uma “brincadeira” ao comentar sobre o uniforme rosa utilizado nos treinos do clube, no mês em alusão ao Outubro Rosa, que é justamente de conscientização às mulheres quanto ao autoexame da mama.
E depois disso, o que mais eu vi foi gente defendendo a idade de Abel, culpando o que eles chamam de geração lacradora, dizendo que rosa é rosa e é cor de mulher, que isso é coisa que idoso fala e um monte de afirmações que passam a normalizar o que foi falado, por “menor” que possam achar. Acontece que, quando você entende esse lado do comentário que é só uma brincadeira, passa a normalizar que detonar um homossexual, uma mulher, um negro é coisa “pequena” porque “é apenas um comentário”.
Teve um que eu li e dizia assim “até parece que o Abel matou um gay”, desse jeito. Mas a grande questão do futebol é exatamente essa falta de noção que lidamos com muita emoção e paixão próximos. Quando você acha em tom de brincadeira, não vai se permitir refletir se em algum momento você não foi preconceituoso mesmo dizendo que não é. Se você normalizar isso, jamais vai se indignar com casos perto de mortes por intolerância ou o que for. A gente precisa se importar, precisa entender que isso não se pode mais, não se fala mais, não se pensa mais.
Detalhe, o Abel diz isso muito próximo da fala do ex-treinador do Inter Ramon Díaz (demitido nesse fim de semana após goleada sofrida do Inter para o Vasco). A diferença é que o anterior atacou as mulheres e também disse depois que foi infeliz na brincadeira. Aliás, falei sobre o caso aqui. A desculpa do Abel depois através de nota foi ainda mais vergonhosa, porque ele cita uns pontos engraçados. Vamos lá:
A nota é essa:

Vamos aos fatos, quando ele diz “Não fiz uma boa colocação sobre a cor rosa”, mas a questão é sobre o viado que ele associou. Ou seja, ele volta a minimizar o erro focado somente na cor (que não é a questão aqui). Aí ele vai adiante e diz “antes que isso se prolifere”, mais preocupado com a imagem, né? Pois é, mas já está no mundo o tamanho do teu preconceito e bizarrice. Aí vamos além, ele diz “cores não definem gêneros, e sim caráter”, ou seja, se você tiver caráter, você é homem, caso contrário.
Depois que aprenderam a fazer nota, todo mundo falou o que quis, num tom automático e NORMALIZADO por alguns. Pessoal, se a gente normalizar isso, a gente vai alimentar quem acredita que ferir um homossexual, uma mulher, um negro é normal porque na brincadeira, todo mundo riu.
BASTA!!!
Colunista
Larissa Balieiro
Jornalista esportiva, apresentadora do Fora de Série AM, proprietária da @agenciaesportiva.lbame vencedora do Prêmio de Jornalista Esportiva mais admirada da região norte.
