Esporte

O adeus ao poeta do futebol amazonense e a enciclopédia viva do samba

Amazonas perde Daniel Sales, autor de vários hinos de clubes do futebol local, além de sambas que fizeram história.

Escrito por Leanderson Lima
17 de novembro de 2025
Foto: Divulgação

O coração do compositor, historiador e economista Daniel Sales da Costa, conhecido como o “Lamartine Babo” do Amazonas, silenciou no último domingo (16), aos 56 anos, em decorrência de complicações do diabetes. Mas o silêncio jamais lhe fará justiça: as melodias, os hinos, as histórias e a memória cultural que ele deixou seguem pulsando como tambor de escola de samba em noite de desfile.

Autor de 10 hinos de clubes do futebol amazonense, Daniel eternizou na música a identidade de equipes que, até então, nunca haviam tido seus feitos e virtudes traduzidos em versos. Dele nasceram os hinos de América, Clíper Clube, Libermorro, Princesa do Solimões, Grêmio Coariense, Holanda, Tarumã, CDC Manicoré, Iranduba da Amazônia e Manaus FC, repertório que o fez ser carinhosamente reconhecido como Lamartine Babo do futebol amazonense.

No samba, deixou marcas profundas. Compositor de obras que atravessaram quadras, sambódromos e gerações, Daniel também foi comentarista de carnaval na televisão, pesquisador incansável e autor do livro “É Tempo de Sambar”, referência sobre a história do carnaval de Manaus. Sua presença era tão sólida na cultura popular que, no velório realizado no salão nobre da Funerária Almir Neves, além das bandeiras dos clubes, também foram hasteados os pavilhões das escolas de samba, símbolo maior do respeito que ele conquistou.

O sepultamento ocorreu no cemitério São João Batista. Daniel deixa quatro filhos: Eduardo (38), Daniele (34), Ellen Juliana (31) e Daniel Filho (9).

Além das camisas dos clubes de futebol que tanto amou, funeral teve as bandeiras das escolas de samba — Foto: Leanderson Lima

Do samba ao futebol

A filha Ellen Juliana, que herdou do pai o dom e a missão do samba, conta que a ligação de Daniel com a cultura começou cedo e nunca mais o deixou.

“Torcedor assíduo do Fluminense, aqui em Manaus, torcia pelo Princesa do Solimões, Manaus, Amazonas, e ele compôs 10 hinos dos clubes de futebol amazonense. Então, ele era muito envolvido também com o meio da comunicação, já foi radialista, ele participou na narração de alguns jogos. E no meio cultural, na manifestação do carnaval, sambista nato. Começou muito jovem na Sem Compromisso, ele é Sem Compromisso de corpo e alma”

Ellen lembra do pai levantando o samba ao lado de Arlindo Jr. e Samuel, seu tio.

“Frequentava todas as escolas de samba, todas mesmo! E foi daí que nasceu o primeiro livro dele, Tempo de Sambar. Ele era economista, compositor e historiador. Por muitos anos, foi comentarista do Carnaval de Manaus, o único capaz de comentar sobre todas as escolas. Ele sabia a história de cada uma desde o início”.

A ex-esposa Elza Oliveira, mãe de três de seus filhos, resume o legado de Daniel.

“O Daniel deixa um legado. A gente sempre acompanhou as escolas de samba, levando os nossos filhos para esse caminho. Hoje eles seguem. Principalmente a Ellen, que carrega esse legado. O Daniel carregava essa bagagem no meio cultural, no carnaval, no futebol. Quem conviveu com ele vai carregar um pouco disso. É uma grande perda para o Amazonas”.

Elza conta que ele pressentia esse momento, mas tratou de preparar a família com amor.

“Ele nos preparou para isso. É triste porque perdemos um grande homem, mas ao mesmo tempo estamos alegres em contar sua história, que foi grande para todos nós”, destacou.

Conforto

Para Ellen, o carinho recebido nestes dias mostra a dimensão de Daniel.

“Esse conforto também é receber tanta homenagem, principalmente nas mídias sociais, colunas, portais, clubes de futebol e escolas de samba. No carnaval ele é conhecido como a enciclopédia do Carnaval, e no futebol, como Lamartine Babo do Amazonas”.

Daniel era formado em Geografia e Economia, e acumulou diversos cursos ao longo da vida.

“O meu pai era apaixonado. Ele fez o TCC dele sobre o Carnaval de Manaus e recebeu um prêmio da Ufam porque foi um dos melhores artigos já escritos. Gostava de estudar, fazia vestibular só para testar a inteligência dele”, lembra Ellen.

Um guerreiro até o fim

Nos últimos anos, enfrentou doenças silenciosas, diabetes, hipertensão e problemas renais, sempre com discrição.

“Meu pai lutou como pôde e lutou até o final. Combateu o bom combate até o último segundo. Na madrugada em que ele se foi, passou cantando. Cantou ‘As Rosas Não Falam’, do Cartola, contou a história de Cartola… estava com muita vontade de viver. Mas dava para sentir que ele tinha feito tudo o que queria fazer. Se estivesse vivo, faria muito mais, mas fez tudo o que ele queria fazer”.

Hinos compostos por Daniel

  • América (1998)
  • Cliper Clube (2000)
  • Libermorro (2000) 
  • Princesa do Solimões (2004)
  • Grêmio Coariense (2004)
  • Holanda (2008)
  • Tarumã (2009)
  • CDC Manicoré (2009)
  • Iranduba da Amazônia (2011)
  • Manaus FC (2013)

Colunista

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