Esporte

Não se ganha um emprego no grito

Novo episódio envolvendo Leão e Oswaldo de Oliveira, ao lado do técnico da Seleção Brasileira, expõe a falta de educação e de noção de mercado de alguns treinadores brasileiros

Escrito por Leanderson Lima
6 de novembro de 2025
Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Não se fala em outra coisa no futebol brasileiro além do vexame homérico protagonizado por Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira no Fórum de Treinadores Brasileiros, organizado pela Federação Brasileira de Treinadores de Futebol (FBTF).

Ali, com o técnico da Seleção Brasileira presente, os veteranos despejaram todo o seu ressentimento e contrariedade por ver um estrangeiro comandando a “amarelinha”.

O italiano manteve a linha e apenas assistiu ao episódio bizarro.

Oswaldo gravou um vídeo explicando, dizendo que gostaria que o técnico italiano fosse embora apenas depois de ganhar um título, mas aí o estrago já estava feito. Leão, extremamente mal-educado, apenas despejou toda a sua ira — e não se espere nenhum pedido de desculpas.

Confira o vídeo a seguir:

É óbvio que o pensamento de Emerson Leão ou de Oswaldo de Oliveira não representa o “todo” da categoria dos treinadores brasileiros. Só que, de forma geral, o que os técnicos brasileiros precisam entender é que não se ganha um emprego no grito.

Há, sim, um incômodo em boa parte da categoria com o fato de haver um gringo no comando da Seleção mais vitoriosa da história do futebol mundial.  

No mercado — independentemente do ramo em que se trabalha —, um profissional conquista a vaga e permanece nela sob uma condição: gerar valor. E, para gerar valor, é preciso estar atualizado, qualificado e, se o objetivo for atuar em outras praças, é bom que, pelo menos, fale outros idiomas.

Há outra máxima também: empregos de alto nível exigem profissionais de altíssimo nível. Ninguém se torna executivo de uma multinacional por sistema de cotas. Nesse aspecto, você pode até não concordar em ver um gringo no comando da Seleção Brasileira; porém, quando se analisa o currículo de Carlo Ancelotti, não sobra pedra sobre pedra. Ele tem currículo de sobra para estar onde está.

É assim que funciona o mercado. É assim que funciona o capitalismo. Quanto mais qualificado você é, quanto mais valor gera, mais dinheiro ganha — e mais trabalho tem. E não é qualquer trabalho: você passa a ter acesso aos melhores cargos, àqueles que pagam mais.

É por isso que o português Abel Ferreira está há cinco temporadas no Palmeiras. O que ele gerou de valor para a marca, com tudo o que conquistou, não está no gibi.

Antes dele, Jorge Jesus já havia chegado e promovido uma verdadeira revolução no Flamengo, fazendo o time jogar como música e sair da incômoda fila de quase 40 anos sem sequer chegar a uma final de Libertadores.

O feito do português naquela temporada não pode ser mensurado na contabilidade, porque ali, além dos ganhos financeiros imediatos, houve a construção de uma nova geração de torcedores, que vão acompanhar — e consumir — o clube por décadas.

Isso é geração de valor. E os treinadores brasileiros podem espernear à vontade: o mundo é cruel, mas é assim que a banda toca.

Gerou valor? Você é lindo.

Não gerou? Um abraço.

O Brasil já foi um país exportador de treinadores, principalmente para praças onde o futebol ainda se desenvolvia — mas isso ficou no passado. E por que será que deixamos de mandar esse tipo de produto para fora? Em um mundo globalizado, a concorrência por essas vagas vem de todos os lados. É preciso ter qualificação para preenchê-las. Quem não tem qualificação nem capacidade de gerar valor, fatalmente ficará de fora do mercado.

Não é o que acontece com os técnicos argentinos, por exemplo. Basta um simples olhar e você verá que eles estão por todos os cantos, principalmente nas grandes ligas europeias.

De cara, uma das barreiras que os treinadores brasileiros não conseguem superar é a questão idiomática.

E isso é o básico do básico. Há dois exemplos clássicos: Felipão no Chelsea e Joel Santana no comando da seleção da África do Sul. “Papai Joel”, aliás, virou um eterno meme na internet por conta disso.

Detalhe: Ancelotti chegou ao Brasil outro dia e já fala português melhor do que muita gente que nasceu aqui.

Por tudo isso, não adianta os treinadores brasileiros baterem o pé como meninos mimados que querem que a mãe compre chocolate na loja de conveniência. O mercado não é mãe de ninguém.

E, para finalizar, um dos momentos mais marcantes de todo esse episódio esdrúxulo foi ver Ancelotti assistir a tudo sem “descer do salto”, sem destempero, sem barraco, sem gritaria.

Muitos jornalistas opinaram que, se fossem o italiano, não aguentariam o desaforo e pediriam demissão.

Lamento, isso não vai acontecer.

Quem tem mental forte, aguenta o tranco e não perde a linha.

Isso é característica dos grandes vencedores.

Só nesse lance, Ancelotti já ganhou o jogo.

E o resto? Que sigam se esgoelando, que nem assim a carteira de trabalho será assinada. Nem aqui e nem em canto nenhum.

Colunista

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