Amazônia

Florestas intactas garantem proteína e sustentam segurança alimentar na Amazônia

Pesquisa baseada em quase 60 anos de dados mostra que florestas preservadas garantem proteína essencial para 11 milhões de moradores rurais

Escrito por Redação
14 de dezembro de 2025
Foto: André Antunes

Um artigo publicado na revista Nature reforça a importância das florestas amazônicas preservadas para a segurança alimentar de povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores. A pesquisa, que contou com a participação de especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), mostra que regiões com mais de 70% de desmatamento registram uma queda de 67% na abundância de animais silvestres e na produtividade da carne de caça, fonte crucial de proteína e nutrientes para milhões de pessoas.

O trabalho, conduzido por 59 pesquisadores de instituições brasileiras e internacionais, reuniu quase 60 anos de informações sobre a caça na Amazônia. Entre 1965 e 2024, foram analisados dados de 625 localidades, revelando o consumo de 490 espécies. Vinte grupos de animais concentram 72% de todas as capturas, com destaque para queixadas, antas e pacas, esta última a espécie mais caçada no bioma.

Carne silvestre garante nutrientes essenciais

Segundo o estudo, a produção anual de carne de tetrápodes, mamíferos, aves, répteis e anfíbios, é suficiente para fornecer quase metade das necessidades diárias de proteína e ferro para os 11 milhões de habitantes da zona rural amazônica. A caça também contribui significativamente com vitaminas do complexo B e zinco, nutrientes escassos na carne de animais domésticos, como frango.

Com a degradação da floresta, no entanto, essa fonte vital de alimentos se fragiliza. Em áreas intensamente desmatadas, espécies sensíveis desaparecem e são substituídas por animais generalistas, como tatus, capivaras e pombas, mais tolerantes à fragmentação e às pressões humanas. Essa mudança é particularmente evidente nas proximidades de áreas urbanas, onde há maior procura por proteína animal.

Foto: Divulgação / Internet

Custo ambiental e econômico da substituição

O estudo também calculou o valor econômico da carne silvestre amazônica. Estima-se que mais de meio milhão de toneladas de biomassa animal sejam extraídas por ano, resultando em 0,37 milhão de toneladas de carne comestível, equivalente a cerca de US$ 2,2 bilhões caso fosse substituída por carne bovina.

Mas substituir a carne de caça por carne doméstica não é viável nem sustentável. Produzir a mesma quantidade exigiria converter até 64 mil km² de floresta em pastagens, além de gerar a emissão potencial de 1,16 bilhão de toneladas de CO₂. Ainda assim, a carne bovina não forneceria a mesma qualidade nutricional em micronutrientes essenciais.

Matérias relacionadas