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Eventos extremos de seca e cheia diminuem a diversidade de peixes na Amazônia

Mudanças podem ir desde o deslocamento entre ambientes até impossibilidade de reprodução

Escrito por
Rhyvia Araujo
May 24, 2024
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A redução da diversidade de peixes podem estar diretamente relacionadas aos eventos extremos como a seca e a cheia dos rios amazônicos. Pelo menos é o que aponta uma recente pesquisa realizada por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) via Universal Amazonas.

Intitulado “Composição de espécies e respostas biológicas ao longo do tempo: monitorando a fauna de peixes no Lago Catalão para entender o impacto de eventos hidrológicos drásticos” o estudo afirma que os eventos hidrológicos afetam toda a rotina de vida dos peixes amazônicos, uma vez que a mudança no nível da água afeta o deslocamento entre ambientes, migrações do rio abaixo ou rio acima, acesso a alimentos e indicação de quando reproduzir.

A coordenadora da pesquisa, doutora em Biologia de Água Doce e Pesca Interior, Cristhiana Paula Röpke, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), explica que as análises começaram com as coletas mensais de peixes utilizando malhadeiras, previamente instaladas na borda da floresta inundada ou na área do lago por 24 horas. Logo após esse processo, todos os peixes foram armazenados em gelo e levados para o laboratório onde ocorre a posterior identificação e análise das espécies.

Nessa etapa, são analisadas algumas características, como peso, comprimento, se é macho ou fêmea, idade (adulto ou jovem) e tipo de reprodução. A pesquisadora afirma que todas as informações passaram a integrar um banco de dados, atualmente com 20 anos de informações, permitindo uma análise mais detalhada, a fim de compreender como as mudanças no ambiente afetaram a fauna dos peixes.

“Especificamente sobre o efeito dos eventos extremos, nós encontramos que um número menor de fêmeas reproduz durante eventos de seca severa, a quantidade de ovos produzidos pelas fêmeas de algumas espécies também é menor do que o esperado para o tamanho delas durante esses eventos”, afirmou a coordenadora da pesquisa.

O período de seca afeta não somente a rotina de migração, alimentação, reprodução e crescimento, mas também aumentam as chances de que muitos peixes morram. Quando a temperatura da água aumenta há uma forte perda na quantidade de oxigênio e aumento na concentração de compostos que podem ser tóxicos.

“Sob condições de estresse impostas pela seca, assim como em seres humanos, os peixes produzem uma alta quantidade de hormônios de estresse, que atuam diretamente no uso das reservas de energia (gordura que estava acumulada na barriga e na carne dos peixes) para sobrevivência, faltando energia para reproduzir”, complementou Cristhiana Paula Röpke.

A reprodução para essas espécies é muito sincronizada a um momento e a percepção de sinais ambientais, que indicam a hora de reproduzir, o que pode ser ‘bagunçado’ por uma enchente muito tardia. Assim, menos filhotes são produzidos, afetando diretamente os estoques de peixes para as pescarias por dois ou três anos.

Os dados são necessários para dimensionar adequadamente o impacto de mudanças climáticas sobre a fauna de peixes da Amazônia. Muitas das informações geradas têm o potencial de melhorar políticas públicas relacionadas à gestão da pesca e conservação.

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