Eleições

Entre rios, floresta e helicópteros: os desafios da logística eleitoral no interior do Amazonas

Planejamento antecipado, apoio das Forças Armadas e estratégias para enfrentar cheias e secas garantem o acesso ao voto em comunidades remotas da Amazônia

Escrito por Rebeca Beatriz
8 de junho de 2026
Urnas eletrônicas passam por testes e preparação antes de serem distribuídas para Manaus e os 61 municípios do Amazonas - Foto: Victor Libório/ DC

No Amazonas, 2.802.689 de eleitores devem ir às urnas no dia 4 de outubro deste ano. Desse total, 1.472.643 estão concentrados na capital e 1.330.046 nos 61 municípios do Estado, de acordo com o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM).

Os dados revelam um cenário ímpar, onde levar uma urna eletrônica até os locais mais isolados do Amazonas é uma tarefa que exige planejamento permanente e uma operação logística considerada uma das mais complexas do país.

Em um estado onde comunidades indígenas e ribeirinhas estão espalhadas por uma vasta área de floresta, a Justiça Eleitoral precisa lidar com distâncias extremas, variações do regime dos rios e limitações de transporte para garantir que todos os eleitores possam exercer o direito ao voto.

Segundo Marcelo Sussuarana, assessor da Gestão de Eleições (AGEL) do TRE-AM, o principal desafio é justamente assegurar que as urnas cheguem aos pontos mais remotos do estado.

O nosso grande desafio é exatamente esse: a gente conseguir levar urna eletrônica para que o eleitor exerça o seu direito de votar nos locais mais longínquos daqui. E aí a gente tem estratégias, tem contratação de empresa para levar urna eletrônica nos locais de votação. Tem um convênio que é feito entre o Ministério da Defesa e o TSE, que a gente usa helicóptero para levar urna para esses locais de votação, que totalizam em um número de 49”, explica.

Sussuarana destaca ainda que há uma série de fatores que impactam diretamente na logística das urnas para o interior do estado. Entre eles, as condições climáticas da região.

A gente tem a incerteza do regime das águas, que a gente não sabe o que vai acontecer em outubro desse ano. A gente tem um processo de cheia que coloca alguns municípios em alerta e o que a gente tem acompanhado junto à Defesa Civil é que o processo do El Nino de 2026 vai ser um processo bem severo. Então a gente não sabe exatamente como a gente vai chegar em outubro, por isso a gente precisa se antecipar com as ações que tomaremos”, disse.

Estratégias

Para cumprir a missão, o TRE-AM utiliza diferentes estratégias de transporte. Além da contratação de empresas especializadas, a Justiça Eleitoral conta com um convênio entre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Ministério da Defesa para o uso de aeronaves militares.

A Justiça Eleitoral trabalha com cenários distintos. Há um planejamento para situações consideradas normais e outro específico para eventos extremos, como ocorreu durante a seca histórica registrada em 2024.

Em 2024, a gente subiu, por exemplo, de 43 locais de votação em área rural de difícil acesso para 78, atendidos por helicóptero. A gente praticamente dobrou a quantidade de locais atendidos”, relembra.

Mesmo diante das dificuldades impostas pela estiagem, nenhuma seção eleitoral deixou de funcionar.

Planejamento começa antes do ano eleitoral

A preparação para uma eleição no Amazonas começa muito antes da campanha ou da votação. Segundo o assessor, as equipes trabalham continuamente para avaliar experiências anteriores e projetar as necessidades futuras.

Começa desde o ano ímpar. A gente trabalha planejando, olhando o que a gente fez na eleição anterior, fazendo uma avaliação sobre esse processo e projetando o que a gente vai fazer no próximo pleito”, descreveu.

Comunidades indígenas e ribeirinhas de difícil acesso dependem de uma complexa operação logística – Foto: Victor Libório/ DC

Municípios que concentram os maiores desafios

Entre os municípios que exigem maior esforço logístico estão São Gabriel da Cachoeira e Atalaia do Norte, ambos localizados em áreas de difícil acesso no extremo Oeste do Amazonas.

Em São Gabriel da Cachoeira a gente tem cerca de 31 locais de votação e todos são bem complicados. A maioria deles a gente usa helicóptero ou avião para chegar”, relata.

Já em Atalaia do Norte, no Vale do Javari, os desafios são ainda maiores devido ao isolamento das comunidades indígenas.

Ali no Vale do Javari a gente tem nove locais, todos indígenas, todos encostados no meio da floresta. Não tem nenhum que tenha relação entre si”.

Em alguns casos, nem mesmo os rios servem como rota de acesso. Há comunidades indígenas instaladas em regiões tão remotas que somente aeronaves conseguem chegar.

São comunidades indígenas bem isoladas, então elas nem ficam na beira dos rios”, explica.

Custo elevado e limitações operacionais

O Amazonas possui cerca de 2,8 milhões de eleitores, divididos praticamente de forma equilibrada entre capital e interior. Apesar disso, a infraestrutura necessária fora de Manaus é maior devido à dispersão das comunidades.

Quando a gente pensa em quantidade de locais de votação no interior tem mais local de votação, porque apesar de ser o mesmo eleitorado praticamente, eles são muito mais dispersos nas comunidades”, explica Sussuarana.

Segundo ele, o transporte aéreo representa um dos maiores desafios financeiros da logística eleitoral na Amazônia.

A gente já fez cotação com helicópteros civis. O custo com helicóptero, por exemplo, seria na ‘casa’ dos R$ 1 mil, por eleitor.

Mesmo com o apoio das Forças Armadas, existe um limite operacional para o atendimento por aeronaves.

Em 2024, com a seca severa, a gente atingiu 78 locais de votação atendidos por helicóptero. Esse, para nós, é o número mágico. Daqui para cima, a gente não tem equipamento para atender”.

Diante das barreiras enfrentadas pela Justiça Eleitoral no Amazonas, é possível notar uma realidade que requer planejamento antecipado e uma operação logística adaptada aos desafios da região amazônica.

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