Cultura

Dia do Curupira: símbolo da floresta ganha destaque na COP30

Personagem do folclore brasileiro é celebrado nesta quinta-feira (17/7) e será o mascote oficial da Conferência do Clima, que acontece em novembro em Belém (PA), reforçando o papel dos saberes tradicionais na proteção ambiental.

Escrito por Clara Gentil
17 de julho de 2025
Fotos: Divulgação/COP30 e Reprodução/Portal V

É celebrado nesta quinta-feira (17/7) o Dia do Curupira, personagem do folclore nacional reconhecido como protetor das florestas. A data ganha um significado especial em 2025, já que o Curupira foi escolhido pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República como o mascote oficial da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que acontece em novembro, em Belém (PA). A escolha reforça o papel simbólico do personagem na defesa ambiental e na valorização dos saberes tradicionais.

Figura recorrente nas narrativas indígenas e populares, o Curupira é descrito como um ser de cabelos vermelhos e pés voltados para trás, característica que, segundo a lenda, permite confundir seus perseguidores, levando-os a se perder na mata. Ele é conhecido por proteger a floresta de ameaças humanas, como o desmatamento e a caça predatória, punindo os invasores de forma implacável.

Suriel Jullião de Souza Gomes, estudante de História, destaca que a figura do Curupira remonta aos primeiros registros coloniais. 

“A lenda do Curupira tem raízes profundas no imaginário dos povos indígenas do Brasil, especialmente na região amazônica. Sua figura já aparece nos relatos coloniais do século XVI, como nas cartas do padre José de Anchieta, que menciona seres encantados com os pés virados para trás que habitavam as matas. Para os povos indígenas, o Curupira é um protetor da floresta e dos animais, punindo quem caça ou desmata de forma desrespeitosa. No Dicionário do Folclore Brasileiro, Câmara Cascudo o descreve como ‘o espírito guardião dos seres e espaços da mata’”. 


Ilustração feita pela Rede Amazônica em 2021. — Foto: Celso Costa/Rede Amazônica 

Embora não exista uma legislação federal que institua oficialmente o Dia do Curupira, a data é amplamente adotada em iniciativas pedagógicas, principalmente em escolas da Região Norte, como forma de promover a educação ambiental e o respeito às culturas indígenas. “Seu uso reforça a importância de proteger a floresta e os saberes indígenas num momento em que o desmatamento e a crise climática colocam em risco esses patrimônios culturais e naturais”, afirma Gomes.

A simbologia do Curupira também se conecta com concepções indígenas de saúde e território. “A relação do Curupira com a História da Saúde aparece quando se considera que, para muitos povos indígenas da Amazônia, a saúde está intrinsecamente ligada à harmonia com o ambiente. O Curupira atua, nesse sentido, como um regulador ecológico, cuja presença simboliza os limites entre o uso saudável e o uso predatório da floresta”, explica o estudante. Segundo cosmologias indígenas, doenças podem ser resultado de desequilíbrios ambientais e espirituais causados por violações à natureza.

Além do aspecto ecológico, o personagem também representa uma forma de resistência cultural frente aos modelos biomédicos ocidentais. “O Curupira pode ser interpretado como símbolo de resistência cultural frente aos modelos biomédicos impostos durante o processo de colonização e nas campanhas de saúde pública dos séculos XIX e XX”, observa Gomes. Ele destaca ainda que estudos recentes reconhecem a relevância dos conhecimentos indígenas na construção de estratégias de cuidado voltadas para a Amazônia.

Em um contexto global de emergência climática, a presença do Curupira como símbolo da COP30 reforça a urgência de integrar práticas tradicionais e conhecimento científico na proteção dos ecossistemas. Como conclui Suriel Jullião de Souza Gomes, “a figura do Curupira está no cruzamento entre a cultura, a ecologia e a saúde. É uma chave simbólica para pensar as formas indígenas de proteger o corpo e o território, além de uma metáfora poderosa da floresta como ente vivo, cuja saúde é também a saúde de seus habitantes.”

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