Festival de Parintins

Comunidade berço do boi Garantido é reconhecida nacionalmente como território quilombola

A certificação foi concedida pela Fundação Cultural Palmares e representa um marco histórico para o movimento negro e para a trajetória cultural da cidade

Escrito por Redação
6 de junho de 2025
Foto: Yasmin Cadore e Divulgação

Nesta sexta-feira (6), o Diário Oficial da União publicou o reconhecimento oficial da Baixa da Xanda, em Parintins, como comunidade remanescente de quilombo. A certificação foi concedida pela Fundação Cultural Palmares e representa um marco histórico para o movimento negro e para a trajetória cultural da cidade.

A certidão de autodefinição formaliza o reconhecimento de um dos territórios mais simbólicos da história do Boi Garantido. Criado no seio da Baixa, o bumbá vermelho e branco é hoje o maior elo afetivo e cultural da comunidade, não apenas por sua identidade negra e indígena, mas também pela trajetória de resistência, ancestralidade e contribuição cultural que remonta ao fim do século XIX.

A Baixa da Xanda se consolidou como uma comunidade de pescadores, formada pela união de povos negros, indígenas e ribeirinhos vindos de diversas regiões da Amazônia. Essa miscigenação resultou em laços comunitários fortes e no nascimento de uma cultura marcada por saberes tradicionais, religiosidade popular e manifestações folclóricas que resistem ao tempo.

É nesse território que nasceu, em 1913, o Boi Garantido, criado por Lindolfo Monteverde, filho de Dona Xanda,figura matriarcal que dá nome à comunidade. A Baixa tornou-se também um importante ponto de chegada para migrantes e trabalhadores, além de ser considerada um dos redutos mais autênticos da cultura popular brasileira.

Um reconhecimento que nasceu da luta

A certificação da Baixa como território quilombola é resultado de um intenso processo de mobilização iniciado em 2024, que envolveu reuniões comunitárias, articulação com outros quilombos da região e a produção de documentos históricos pelos próprios moradores. Um dos momentos marcantes desse processo foi a homenagem a Dona Xanda, em 2024, como figura central da Figura Típica Regional “Ribeirinha”, no Festival de Parintins, algo inédito em mais de 50 anos de festival.

A matriarca da comunidade, Dona Maria do Carmo Monteverde, de 87 anos, é reconhecida como Mestra dos Saberes e Fazeres Culturais do Amazonas. Sua história familiar carrega as raízes do processo de aquilombamento, iniciado por sua bisavó, Dona Germana, uma mulher negra que nasceu escravizada e, após a abolição, estabeleceu-se na região.

“Toda a história maravilhosa da nossa comunidade, na verdade, começou com minha bisavó, que se chamava Germana. Ela nasceu escravizada, tinha no corpo as marcas da escravidão: as iniciais do dono, ferradas como se fazia com o gado, muitas marcas de chicote, assim contavam os mais velhos. Alexandrina, a Dona Xanda, era filha de Germana. A Xanda teve sete filhos e Lindolfo Monteverde, o meu pai, era o mais velho dos irmãos. A Dona Xanda herdou as terras, e eles permitiram que o povo vindo de vários lugares fizesse suas roças e moradas por aqui. E assim começou a comunidade”, detalhou Dona Maria.

Cultura, fé e resistência

Além do Boi Garantido e de outras manifestações como os folguedos juninos, a Baixa da Xanda preserva tradições que mesclam o catolicismo popular, a religiosidade afro-amazônica, a pajelança indígena e os saberes de cura popular, como os das rezadeiras. Os santos São Benedito e São José Operário foram escolhidos como padroeiros locais e deram nome aos bairros vizinhos São Benedito e São José, reforçando os vínculos entre fé, cultura e identidade.

Lara Monteverde, tataraneta de Dona Xanda e bisneta de Dona Maria do Carmo, representa a nova geração da família Monteverde. Atualmente, interpreta a personagem Mãe Catirina no Auto do Boi Garantido. Para ela, a certificação da Fundação Palmares é um ato de memória e justiça histórica.

“A certificação da Baixa como território quilombola pela Fundação Palmares vai além de um documento, é o reconhecimento do Estado brasileiro pela história de resistência negra e indígena dos que formaram essa comunidade. Um ato de memória e também de justiça histórica para figuras como Germana e Xanda, mulheres negras que por muito tempo foram esquecidas e invisibilizadas. Essa conquista abre caminhos para fortalecer os saberes dos mais velhos, nossas culturas e tradições”, afirmou Lara.

Em 2025, o Boi Garantido, com o tema “Boi do Povo, Boi do Povão”, celebrará a história do Quilombo da Baixa da Xanda no Festival de Parintins. A toada “O Povo Negro da Amazônia”, dos compositores Jorge Moraes, Helen Veras, Maneca Sobral e Sebastião Bringel, será uma das homenagens à ancestralidade e à resistência negra e indígena da comunidade.

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