A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, reacendeu no Congresso Nacional o debate sobre a eficácia dos mecanismos de fiscalização do sistema financeiro. A fraude, associada à emissão de títulos sem lastro e à supervalorização de ativos, resultou em um rombo estimado em mais de R$ 50 bilhões, considerado o maior da história do sistema bancário brasileiro.
Diante do impacto, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado criou, em fevereiro, um grupo de trabalho para levantar informações e propor medidas legislativas que evitem novos casos semelhantes. Coordenado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), o colegiado tem doze membros titulares e quatro suplentes e já iniciou as audiências públicas.
Na primeira reunião, realizada em 17 de março, especialistas destacaram a importância da confiabilidade das informações contábeis. Auditores independentes relataram dificuldades para identificar fraudes quando a alta administração das instituições está envolvida nas irregularidades. “As auditorias independentes existem justamente para reduzir a desigualdade de informação entre as partes. Em mercados complexos, a confiança nesse meio se baseia muito na transparência e na precisão dos dados”, afirmou Renan Calheiros.
Debates na comissão também apontaram que o avanço das fintechs e dos bancos digitais tem superado a capacidade de monitoramento dos órgãos reguladores. A falta de integração entre a supervisão prudencial do Banco Central e a fiscalização de ativos financeiros pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) teria permitido a manutenção de operações com ativos inconsistentes por períodos prolongados.
O vice-presidente da CAE, senador Laércio Oliveira (PP-SE), defendeu o fortalecimento da governança para recuperar a confiança do mercado. “Transparência, regras claras e fiscalização eficiente são fundamentais para dar segurança jurídica e confiança aos investidores”, disse.
Especialistas destacam que o sistema financeiro brasileiro opera com diferentes “linhas de defesa”, que incluem controles internos das instituições, auditorias independentes e supervisão dos reguladores. Apesar da estrutura, a velocidade das operações financeiras e limitações técnicas das auditorias, que trabalham por amostragem, podem dificultar a detecção de irregularidades.
O caso também reacendeu discussões sobre a necessidade de modernização tecnológica da fiscalização. O uso de inteligência artificial para cruzamento de dados e o fortalecimento da governança institucional são apontados como caminhos para ampliar a capacidade de supervisão.
Além dos impactos no mercado financeiro, o episódio atingiu fundos de previdência de servidores estaduais e municipais. Dados do Ministério da Previdência indicam que ao menos 18 regimes próprios de previdência social investiram na instituição, com cerca de R$ 1,87 bilhão atualmente vinculado ao processo de liquidação, sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
O tema segue em discussão no Senado, com propostas legislativas em elaboração para reforçar a supervisão e evitar novos colapsos no sistema financeiro nacional.
