Justiça

Caso Benício: médica vendia maquiagem enquanto criança sofria overdose de adrenalina

Mensagens extraídas do celular da médica, reveladas com exclusividade pela Rede Amazônica, reforçam suspeita de negligência durante atendimento que terminou na morte do menino em Manaus.

Escrito por Redação
23 de março de 2026
Investigação mostra que médica também adulterou vídeo de câmera de segurança para tentar ludibriar as investigações

Mensagens atribuídas à médica Juliana Brasil apontam que ela negociava a venda de maquiagem enquanto o menino Benício Xavier, de 6 anos, apresentava dificuldades para respirar durante atendimento hospitalar em Manaus. O conteúdo consta no relatório de extração de dados do celular da profissional e foi revelado com exclusividade pela Rede Amazônica.

Benício morreu no dia 23 de novembro, após receber adrenalina diretamente na veia durante atendimento no Hospital Santa Júlia. Segundo a investigação, a via e a dosagem prescritas não eram indicadas para o quadro clínico da criança. Após a aplicação, o menino sofreu múltiplas paradas cardíacas e não resistiu.

De acordo com o inquérito, Benício deu entrada na unidade às 13h30 com tosse seca, febre e suspeita de laringite. O caso não foi classificado inicialmente como grave. Às 14h29, a técnica de enfermagem Raíza Bentes aplicou adrenalina pura, sem diluição, por via intravenosa, conforme prescrição de Juliana Brasil. Logo após a administração, a criança passou mal.

A médica foi chamada às 14h37. Nos primeiros atendimentos, segundo a polícia, ela utilizava o celular para pedir orientação a outros profissionais. Às 15h47, quando o menino ainda apresentava dificuldades respiratórias, a médica teria conversado com uma amiga sobre a venda de maquiagem.

Nas mensagens, a amiga solicita a chave Pix e a médica a envia. Em seguida, a compradora informa o produto que irá pagar, e Juliana responde com emojis e menciona a concessão de desconto.

Para a polícia, as conversas reforçam a suspeita de negligência no atendimento. “O fato da médica estar vendendo produtos de beleza enquanto a vítima estava deitada numa maca em overdose de adrenalina, em estado crítico entre a vida e a morte, denota um evidente elemento de prova (…) Isso denota indiferença com a vida da vítima, o que configura o chamado dolo eventual, caracterizando homicídio qualificado doloso”, diz o delegado Marcelo Martins, titular do do 24º DIP, responsável pela investigação.

O delegado afirmou também que a médica teria encomendado e pago pela adulteração de um vídeo apresentado pela defesa. O material sustentava a versão de que a prescrição intravenosa teria sido resultado de falha no sistema do hospital. Perícias, contudo, indicaram manipulação do conteúdo.

Em nota, a defesa de Juliana Brasil afirmou que o vídeo é íntegro e foi produzido por pessoa de confiança em outro hospital que utiliza o mesmo sistema. A defesa negou o pagamento mencionado pelo delegado e não comentou as mensagens sobre a venda de maquiagem.

A investigação aponta erro na prescrição e na aplicação da adrenalina por via intravenosa. O protocolo médico indicaria outra via e dosagem, e a aplicação inadequada estaria associada à rápida piora do quadro clínico.

A médica Juliana Brasil e a técnica de enfermagem Raíza Bentes são as principais investigadas. Ambas foram afastadas das atividades profissionais por decisão judicial e estão proibidas de atuar por 12 meses. Não há prisões decretadas.

Em depoimento, a médica reconheceu erro na prescrição e afirmou que a medicação deveria ter sido administrada por outra via. A defesa sustenta que houve falha no sistema de prescrição do hospital, que teria alterado automaticamente a via do medicamento.

A técnica de enfermagem declarou que apenas seguiu a prescrição médica ao aplicar a adrenalina sem diluição e que informou a mãe da criança sobre o procedimento. Segundo ela, após a aplicação, o menino apresentou palidez, dor no peito e dificuldade para respirar.

A Polícia Civil já ouviu mais de 20 pessoas, entre familiares, profissionais de saúde e representantes da unidade hospitalar. O inquérito também apura a responsabilidade do Hospital Santa Júlia quanto à estrutura, protocolos de segurança e eventuais falhas no sistema de prescrição.

O fundador do hospital, Édson Sarkis, afirmou em depoimento que a unidade possui protocolos de segurança e dupla checagem, e que havia enfermeira responsável no plantão, mas ela não foi acionada.

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