Poucos clubes no Brasil viveram uma trajetória tão fulminante quanto a do Amazonas FC. Fundado em 2019, o clube aurinegro teve ascensão meteórica: saiu do porão do futebol brasileiro, a Série D, em 2022 para disputar sua primeira Série B já em 2024.
O acesso da Série D para a Série C veio logo na primeira participação da equipe em um campeonato nacional. No ano seguinte, o feito se repetiu, desta vez coroado com um título histórico na Terceira Divisão, a primeira conquista nacional de um clube amazonense. Até então, o Estado havia “batido na trave” em três ocasiões.
A primeira chance perdida foi em 1999, quando o São Raimundo ficou com o vice da Série C, superado pelo Fluminense. Depois, em 2010, o América de Amadeu Teixeira tornou-se o primeiro representante local a alcançar a final da Série D, mas perdeu o título para o Guarany de Sobral. Naquele ano, por uso irregular de um jogador, o “Diabo” ainda teve o acesso cassado — e, caso tivesse sido campeão, também perderia a taça.
Em 2019, o Manaus FC chegou a uma decisão nacional, enfrentando o Brusque na final da Série D. A derrota nos pênaltis silenciou a Arena da Amazônia. Coube à Onça-Pintada quebrar essa “maldição” e conquistar, enfim, o primeiro título nacional do futebol amazonense.
A escrita foi rompida de forma inesquecível em 2023, quando o clube, após duas derrotas no quadrangular final da Série C, promoveu uma troca no comando técnico e engatou quatro vitórias consecutivas, sequência que garantiu o acesso e, posteriormente, o título sobre o Brusque, desta vez em pleno Sul do País. Glória absoluta.
Duas temporadas depois, porém, o Amazonas amarga o primeiro rebaixamento de sua curta história. E, com isso, surge a grande dúvida: será o Amazonas FC o próximo “cometa” do futebol amazonense?
Explica-se: São Raimundo, América e Manaus FC tiveram seus momentos de brilho no cenário nacional, mas não conseguiram manter o protagonismo.
O São Raimundo foi o que mais perdurou, permanecendo sete temporadas na Série B. Desde o rebaixamento em 2006, jamais recuperou o mesmo status e hoje luta para sobreviver em meio a dívidas.
O América viveu o desfecho mais triste, encerrando suas atividades profissionais após o episódio de 2010.
O Manaus, por sua vez, tornou-se o primeiro clube local a deixar a Série D, em 2019. Manteve-se na Série C entre 2020 e 2022, caiu em 2023 e, em 2026, tentará pela terceira vez retornar à divisão, sem sequer ter chegado ao jogo do acesso nas duas últimas temporadas.

O Amazonas repetirá esse ciclo de ascensão seguida de queda e perda de protagonismo?
O rebaixamento, consumado após o empate por 2 a 2 com o Paysandu na sexta-feira (14), representa o primeiro grande teste estrutural do clube. Mais do que reconstruir o elenco e ajustar o planejamento, será preciso avaliar o impacto financeiro da queda.
Como revelou o Diário da Capital, o Amazonas fechou 2024 no vermelho, com déficit próximo de R$ 3,5 milhões. Com a queda de divisão, as receitas naturalmente diminuem, e o tamanho do “buraco” deixado pela temporada indicará a dimensão da missão do clube para 2026.
Em estados com futebol consolidado, cair não é o fim. Mas, no Amazonas, historicamente, o rebaixamento tem sido quase uma sentença de morte esportiva. Nenhum clube local voltou ao patamar anterior para contar essa história. A Onça-Pintada tem, inclusive, a chance de ser pioneira — se conseguir superar o desafio.
O futebol amazonense é repleto desses “cometas”: surgem, brilham intensamente e desaparecem. E isso vale até para o feminino, basta lembrar do envolvente Iranduba, o “Hulk da Amazônia”, que chegou ao terceiro lugar da Libertadores feminina, empolgou o país e, depois, mergulhou num ostracismo que perdura até hoje.
O tempo dirá se o Amazonas FC se tornará uma estrela definitiva ou apenas mais um cometa que passou por nossas vidas.
