Quase R$ 30 milhões em valores previstos para obras e contratos, seis anos de espera e nenhum dia de funcionamento. Essa é a situação do Terminal de Integração 6 (T6), localizado no bairro Lago Azul, zona Norte de Manaus. Iniciada em 2020, durante a gestão do ex-prefeito Arthur Virgílio Neto, a construção recebeu investimento estimado em R$ 16 milhões e foi entregue no fim daquele ano. No entanto, a estrutura nunca chegou a operar. Em 2021, o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) suspendeu sua implantação, alegando problemas de localização e possíveis impactos nos itinerários do transporte coletivo.
Sem cumprir a finalidade original, o T6 ganhou uma nova promessa durante a administração do então prefeito David Almeida: transformar-se na nova rodoviária de Manaus. Em junho de 2023, a Prefeitura anunciou a adaptação do espaço, por meio de contrato de R$ 13,6 milhões com a MCA Construtora Ltda. A obra, porém, não foi concluída. Em outubro de 2025, o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM), após representação da Defensoria Pública, apontou a ausência de estudos técnicos sobre a transferência da rodoviária e determinou a elaboração de um novo plano. Já em junho de 2026, o contrato foi suspenso por interrupção dos repasses financeiros. Somados, os valores estimados das duas etapas chegam a R$ 29,6 milhões, quantia que não corresponde necessariamente ao total efetivamente pago.
Enquanto o poder público acumula mudanças de projeto e obras inacabadas, moradores dos bairros Viver Melhor e Lago Azul convivem com as consequências. O comerciante Joel de Araújo, que mantém um mercadinho próximo ao terminal, relata ter sido assaltado e denuncia a falta de iluminação, o descarte irregular de lixo e a ausência de trabalhadores no local há cerca de três meses. Segundo ele, David Almeida prometeu colocar o espaço em funcionamento em três ocasiões, mas nenhuma das promessas foi cumprida. “Muito complicado. Porque muito dinheiro foi gasto”, lamentou.
A doméstica Julia Almeida, de 54 anos, acompanha a situação desde 2020 e afirma que a estrutura passou a ser utilizada como abrigo por pessoas em situação de rua. Segundo ela, moradores chegam a pagar pela retirada de lixo acumulado nas proximidades, enquanto a iluminação precária aumenta a sensação de insegurança. Revoltada com a sucessão de obras sem resultado, ela cobra uma resposta da atual administração municipal. “Entra obra, sai obra e nada”, resumiu. Julia também fez um apelo ao prefeito Renato Júnior: “Se vai ser rodoviária, se vai ser terminal, que viesse aqui. Por favor, prefeito, vem aqui e vê como é que tá essa situação”.
Sem previsão de retomada das obras ou definição sobre sua finalidade, o T6 permanece sem oferecer qualquer serviço à população. A estrutura, que deveria facilitar o deslocamento de moradores da zona Norte, tornou-se alvo de reclamações por abandono e insegurança. Enquanto isso, usuários do transporte coletivo continuam dependendo de linhas alimentadoras e conexões com outros terminais. O caso expõe uma sequência de decisões administrativas, investimentos previstos e promessas que, até agora, não resultaram na entrega de um equipamento público em funcionamento.
