Saúde

Doação de órgãos pode representar uma nova chance para quem espera por um transplante

Histórias de pacientes transplantados mostram como a doação pode salvar e transformar vidas

Escrito por Rebeca Beatriz
28 de setembro de 2026
Mesmo com o registro da vontade em vida, a decisão sobre a doação continua dependendo da autorização da família - Foto: Hercules Xavier/ DC

Atualmente, Andreza Oliveira leva uma vida normal. Professora de Educação Física, ela passou por um transplante de rim há pouco mais de um ano. Depois do procedimento, aprendeu a recomeçar e diz que passou a enxergar a vida de uma maneira diferente.

A história começou com o diagnóstico de lúpus, uma doença autoimune que pode atingir e inflamar diferentes órgãos do corpo. No início, aceitar a situação foi difícil. Depois, veio o tratamento, que incluía sessões de hemodiálise pelo menos três vezes por semana.

“Eu não aceitava. Mas não de forma com raiva, só estava achando que meu rim ia voltar. Eu confiava muito na minha juventude. Achava que só pessoas idosas passavam por isso. Hoje, depois de tudo que passei, eu só posso dizer que Deus é bom o tempo todo. A minha expectativa quando transplantei era ‘vou poder beber água’. Só que é muito mais do que isso. É uma segunda chance, uma segunda vida”, conta.

O período de tratamento no hospital também foi marcado por encontros que se transformaram em amizade. Foi durante essa fase que Andreza conheceu a estudante de Psicologia Ismary Goitía, que também passou por um transplante renal. As duas se tornaram melhores amigas.

“Uma das partes mais difíceis do tratamento foi o começo, por causa da falta de informação. Eu não sabia o que era, não sabia como funcionava um transplante, como entrar na fila de transplante. Na realidade da vida da maioria das pessoas, ouvir a palavra transplante é algo que só a gente vê no filme. A gente pensa ‘nunca vai acontecer comigo’. Então foi um desafio receber um diagnóstico que eu não conhecia e ouvir que eu precisaria fazer um transplante”.

O transplante de Ismary foi realizado em maio. Mesmo sem saber a identidade do doador, ela agradece à família que decidiu autorizar a doação em um momento de dor.

A decisão de doar

A ciência mostra como cada órgão é essencial para a vida. Mas existe algo que nenhum laboratório consegue produzir: a decisão de doar. Uma conversa em família pode significar esperança para quem espera por um transplante. Por isso, falar sobre doação também é falar sobre solidariedade e sobre a possibilidade de continuar vivendo.

No Brasil, mais de 85 mil pessoas aguardam por um transplante, de acordo com dados do Ministério da Saúde. A maior parte está na fila por um rim. Também há milhares de pessoas aguardando por córneas, além de pacientes que precisam de fígado, coração, pulmão e pâncreas.

Dados do Ministério da Saúde — julho de 2026:
• Rim: 45 mil pessoas na fila de espera
• Córnea: 36 mil pessoas na fila de espera
• Fígado: 2,4 mil pessoas na fila de espera
• Coração: 400 pessoas na fila de espera
• Pulmão: 200 pessoas na fila de espera
• Pâncreas: centenas de pessoas na fila de espera

A conscientização é uma das formas de estimular a doação e contribuir para reduzir a fila de espera. Uma das maneiras de registrar a vontade de ser doador é por meio de uma declaração feita em cartório, como destaca a diretora da Associação dos Notários e Registradores do Amazonas (Anoreg-AM), Juliana Fioretti.

“Existe uma videoconferência para checagem de identidade e da declaração de vontade. Nessa declaração você escolhe quais os órgãos que você deseja que sejam doados. E isso fica registrado e é acessado pelos médicos na hora ali da morte para que ele avise a família dessa vontade existente do doador, porque isso faz muita diferença”, explica.

Mesmo com o registro da vontade em vida, a decisão sobre a doação continua dependendo da autorização da família.

Amazonas já realizou centenas de transplantes

No Amazonas, a doação de órgãos já ajudou a transformar a história de centenas de pacientes. O estado realiza transplantes renais e hepáticos.

Desde a retomada do serviço de transplantes no Amazonas, em 2023, o Hospital Delphina Aziz já realizou mais de 370 procedimentos. O secretário de Estado de Saúde do Amazonas, Luís Saraiva, fala do trabalho realizado no hospital.

“Hoje o Amazonas é um centro regional de referência em transplantes. No hospital Delphina Aziz fazemos por mês quase 20 transplantes entre transplantes de fígado e de rins. São vidas salvas. São pessoas que estão há anos em uma diálise ou há meses internados à beira da morte. Você consegue com um ato de solidariedade”.

Mas o caminho até o transplante começa muito antes de o órgão chegar ao paciente. Para ser um doador de órgãos após a morte, é necessário que seja constatada a morte encefálica. Nesses casos, apesar da perda irreversível das funções cerebrais, os órgãos podem ser mantidos em funcionamento temporariamente com suporte médico, permitindo a avaliação para uma possível doação.

A especialista em Captação e Doação de Órgãos, enfermeira Helen Bezerra explica o passo a passo antes do transplante.

“Para ser um doador de órgãos o paciente precisa estar em morte encefálica. Isso acontece em acidentes automobilísticos, morte por armas de fogo, arma branca. Quando há algum comprometimento, a atividade cerebral para de funcionar. Então automaticamente o cérebro para de funcionar e os órgãos ainda ficam em manutenção, através da ventilação mecânica”.

Quando a doação é autorizada, um único doador pode beneficiar várias pessoas. Um doador pode salvar praticamente 8 a 9 vidas. Um coração, dois pulmões, dois rins, um fígado, um pâncreas e até um intestino. A questão das córneas também.

Setembro Verde

É justamente para chamar atenção para essa possibilidade que o Setembro Verde ganha espaço no calendário. A campanha busca incentivar a doação de órgãos e ampliar a conscientização sobre o tema.

O coordenador da Central de Transplantes do Amazonas, doutor Marcos Lins, fala que é necessário conscientização sobre o tema.

“Estamos no Setembro Verde, mês de incentivo à doação de órgãos. Um mês muito importante para a causa, o Amazonas está entre os primeiros da região Norte avançando no Brasil interior no número de transplantes. Precisamos que o Amazonas diga sim para a doação”.

Para quem está na fila, a espera pode durar anos. Para quem decide doar, a atitude pode representar uma nova chance para outras pessoas. A principal orientação para quem deseja ser doador é conversar com a família e deixar clara essa vontade. Em um momento de perda, essa decisão pode significar esperança para quem ainda aguarda por um transplante.

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