Durante entrevista concedida nesta quarta-feira (10/6) à Federação do Comércio do Amazonas (Fecomércio-AM), a pré-candidata ao Governo do Amazonas, Maria do Carmo Seffair (PL), fez críticas à situação da infraestrutura e do turismo no Estado, mencionando que há estradas abandonadas a décadas e citando problemas históricos em obras como as ligações rodoviárias para Anori e Codajás.
A empresária também relatou ter ouvido de um vendedor do interior, sem identificar município ou fonte, que ele comercializaria mais para a Fametro em um único mês do que todo um município compraria em um ano. A declaração buscou ilustrar a fragilidade econômica de parte do interior amazonense, mas não foi acompanhada de dados ou indicadores que permitissem comprovar a comparação.
A fala, no entanto, abre espaço para questionamentos sobre a própria trajetória da pré-candidata na gestão de grandes empreendimentos privados no Amazonas.
Um dos principais exemplos é a antiga Santa Casa de Misericórdia de Manaus, adquirida pelo grupo Fametro em leilão judicial realizado em 2019. À época, a aquisição foi apresentada como um marco para a recuperação de um dos patrimônios históricos mais importantes da capital amazonense. A proposta previa a implantação de um hospital universitário e a retomada de serviços de saúde para a população.
Em entrevistas posteriores, Maria do Carmo afirmou que o projeto devolveria a estrutura à comunidade e cobrava agilidade dos órgãos responsáveis para acelerar as obras. Em 2024, chegou a declarar que a Santa Casa e o antigo Tropical Hotel eram patrimônios que não poderiam ser deixados em ruínas.
Contudo, passados mais de seis anos da aquisição, a população ainda aguarda a efetiva entrega do hospital prometido. A demora gera questionamentos sobre a capacidade de execução de projetos complexos, especialmente quando a própria pré-candidata utiliza a lentidão de obras públicas como argumento para criticar governos anteriores.
Situação semelhante envolve o tradicional Tropical Hotel Manaus. Em fevereiro de 2024, Maria do Carmo afirmou que o empreendimento seria reinaugurado até o final daquele ano, apresentando o projeto como parte da recuperação de importantes patrimônios da cidade.
Entretanto, o hotel continua sendo alvo de debates sobre prazos e efetiva retomada das operações, tornando-se mais um caso em que as expectativas anunciadas ao público ainda enfrentam desafios para se concretizar.
Só criticar não resolve
As críticas feitas pela pré-candidata às rodovias do interior encontram respaldo em um problema reconhecido há décadas no Amazonas. Municípios como Anori e Codajás convivem com dificuldades logísticas históricas, especialmente em razão da dependência fluvial e dos elevados custos de infraestrutura terrestre
No entanto, transformar diagnósticos antigos em soluções concretas é justamente o principal desafio de quem pretende governar o estado. Nesse contexto, cresce a cobrança para que os pré-candidatos apresentem propostas detalhadas, metas e cronogramas, em vez de apenas apontar problemas já conhecidos pela população.
Ao entrar na disputa pelo governo estadual com o argumento de que sua experiência empresarial pode ser transferida para a gestão pública, Maria do Carmo passa a ser naturalmente cobrada pelos resultados dos grandes projetos que ajudou a liderar na iniciativa privada.
Assim, suas críticas às estradas inacabadas e à falta de desenvolvimento do interior acabam acompanhadas por uma pergunta inevitável: se obras públicas que se arrastam por anos são motivo de reprovação, por que projetos emblemáticos associados ao seu grupo empresarial também continuam sem entregar plenamente os resultados anunciados à população?
