A possibilidade da formação de um novo evento climático El Niño no segundo semestre de 2026 já preocupa especialistas no Amazonas. Meteorologistas alertam que, apesar das incertezas sobre a intensidade do fenômeno, os primeiros indicativos apontam para um cenário de estiagem importante durante o chamado “verão amazônico”, período marcado pela redução das chuvas na região.
Segundo o meteorologista Dr. Renato Sena, o principal risco está no momento em que o fenômeno deve começar a atuar na Amazônia, coincidindo justamente com a estação seca.
“Em princípio não é possível ainda prever a intensidade da ocorrência muito provavelmente de um evento El Niño no início do próximo semestre. O problema é que, segundo as previsões, este evento inicia seus efeitos durante a estação seca em nossa região, tal qual o evento de 2023”, explicou.
A preocupação surge principalmente pela lembrança da seca histórica registrada em 2023, quando o Amazonas enfrentou níveis críticos nos rios, calor extremo e dificuldades no abastecimento de comunidades isoladas. No entanto, especialistas apontam que o cenário atual apresenta diferenças importantes em relação aos últimos anos.
O coordenador do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Prof. Dr. Francis Wagner, afirma que a tendência inicial é de um impacto menos severo do que o observado em 2023 e 2024.
“Em 2024, a região já entrou no período seco com um déficit hídrico severo acumulado. Em 2026, o cenário muda pois temos uma “reserva” considerável de água. Mesmo que o El Niño se consolide rapidamente, a bacia amazônica atualmente possui um ‘fôlego hídrico’”, destacou.
Apesar disso, o pesquisador alerta que o pico da estiagem, principalmente no mês de outubro, ainda exige atenção devido à velocidade do aquecimento das águas do Oceano Pacífico.
De acordo com Renato Sena, o comportamento das chuvas na Amazônia Brasileira em 2026 tem sido irregular. Algumas regiões apresentam redução nos índices de precipitação, enquanto outras seguem dentro da normalidade. Apenas a bacia do Rio Madeira registra índices positivos até o momento.
“As chuvas mais intensas têm ocorrido nas cabeceiras dos rios que formam o Solimões, na Cordilheira dos Andes. Dessa forma, o quadro geral não é muito promissor”, afirmou o meteorologista.
Especialistas também alertam que as características geográficas do Amazonas tornam os impactos da seca ainda mais graves. Segundo Francis Wagner, a redução no nível dos rios afeta diretamente a logística da Zona Franca de Manaus, encarece o transporte de mercadorias e aumenta o custo de vida da população.
“Quando os rios e lagos secam, milhares de famílias ficam isoladas, sem acesso a alimentos, medicamentos e até água potável de qualidade”, explicou.
Mesmo com a possibilidade de um El Niño considerado moderado neste momento, os pesquisadores reforçam que o cenário ainda pode mudar nos próximos meses. O monitoramento das temperaturas oceânicas e do regime de chuvas será fundamental para prever possíveis impactos ambientais, sociais e econômicos na região amazônica.
