Cultura

Fotojornalista Carolina Caramurú estreia exposições internacionais e lança projeto de formação fotográfica voltado à equidade de gênero

A agenda dupla marca o que Caramurú define como um “sinal de fumaça”, um aviso ao mundo de que seu trabalho agora assume um posicionamento firme, artístico e político

Escrito por Redação
12 de abril de 2026
As exposições apresentam recortes distintos para dois continentes. Foto: Divulgação

Entre o fogo que consome a floresta e o clique que constrói autonomia de meninas e mulheres, a fotojornalista Carolina Caramurú aos 23 anos vive um momento que menos parece um marco de carreira e mais um ponto de inflexão.

Nos meses de Abril e Maio deste ano, Caramurú estreia suas duas primeiras exposições individuais, conectando dois mundos: de um lado, Toulouse, na França, do outro, Novo Airão, no coração da Amazônia; e lança também o projeto “Elas Clicam.”, uma iniciativa independente de fotografia documental para mulheres em territórios de vulnerabilidade social.

A agenda dupla marca o que Caramurú define como um “sinal de fumaça”, um aviso ao mundo de que seu trabalho agora assume um posicionamento firme, artístico e político.

“É uma demarcação de território. A partir de agora, meu foco é fazer o que acredito e garantir que outras mulheres ocupem sempre esses espaços”, afirma a fotógrafa.

A trajetória da profissional tem sido marcada por conquistas que chegam sempre em dose dupla: seus primeiros prêmios vieram em meses seguidos e, agora, suas duas primeiras exposições também. Para Caramurú, essa duplicidade simboliza um novo ciclo de força feminina e amadurecimento artístico.

Entre a Floresta e o Fogo: Um olhar que atravessa a fumaça

As exposições apresentam recortes distintos para dois continentes. Em Toulouse, no La Candela café Culturel Associatif, serão expostas 9 obras no dia 18 de Abril; a convite associação cultural “L’Amazonie en Mouvement”. No Brasil, de 3 a 17 de maio, a Galeria Jirau, em Novo Airão, estréia as exposições fotográficas no espaço, com uma seleção ampliada com 13 fotografias.

As imagens são fruto de uma presença contínua nos territórios e carregam uma carga pessoal profunda. Para Caramurú, o tema “Desmatamento e Amazônia” não é apenas um tópico de cobertura jornalística, mas uma ferida familiar. “Minha avó morreu com problemas respiratórios no interior do Pará. Isso atravessa meu olhar e pontua a minha urgência com este tema. Essas fotos materializam meu compromisso não só com o que vejo, mas com o que vivo e sinto”, desabafa.

Projeto Elas Clicam: Invertendo o controle da narrativa

Talvez o gesto mais radical de Carolina não esteja nas paredes das galerias e sim nas mãos que ela quer formar. Com o lançamento do “Elas Clicam.”, a fotógrafa propõe uma inversão histórica: tirar mulheres da posição de objeto e colocá-las como autoras de suas próprias narrativas.
Inspirado no pensamento de Paulo Freire, o projeto nasce como ferramenta e ruptura. Pequenos grupos, territórios invisibilizados, escuta ativa e, sobretudo, autonomia.

O projeto nasceu de um desconforto acumulado diante da disparidade de gênero na profissão. Dados do World Press Photo indicam que mulheres representam menos de 20% dos profissionais na área; no fotojornalismo, esse número cai para cerca de 15%.

O projeto oferece oficinas de fotografia documental para grupos de até 10 mulheres e meninas (a partir de 14 anos), com foco em locais de baixo IDH, periferias e comunidades isoladas. A metodologia é inspirada nos “Círculos de Cultura” de Paulo Freire: as participantes debatem o cotidiano para decidir o que desejam valorizar ou denunciar através da imagem.

“Fui uma dessas meninas. Lutei pela primeira câmera e dormi na rua em São Paulo para trabalhar. Agora, quero que elas deixem de ser objeto para se tornarem sujeitos de suas histórias”, explica Caramurú. O projeto busca parceiros e “padrinhos” para garantir que, após as oficinas, as alunas recebam equipamentos e mentorias, criando uma ponte real com o mercado de trabalho.

Raízes e Influências

Nascida em Manaus e criada em Santarém (PA), Caramurú define o fotojornalismo como sua “metade sisuda” e a fotografia documental como seu lado sentimental. Apesar da pouca idade, já fotografou figuras públicas como Manuela D’Ávila e Luana Piovani, mas busca referências para além da técnica. Suas inspirações vêm da literatura de Simone de Beauvoir, Carolina Maria de Jesus e Clarice Lispector.

“Comunicar na Amazônia é disputar narrativa. Durante décadas, fomos contados por olhares de fora, exotificados ou reduzidos a desastres. Minha maior inspiração profissional é minha avó, que administrou oito filhos e me construiu. É essa capacidade de gestão e resistência que levo para cada trabalho, o que mais quero, é que Elas Cliquem.”, finaliza a fotógrafa.

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