Motivada pela crise econômica e social na Venezuela, Yizzell Carolina Mejías Briceno enfrentou dois dias de viagem marcados por incertezas até chegar ao Brasil. Em Manaus, foi acolhida e encontrou uma oportunidade de recomeço.
Sem emprego e sem rede de apoio, ela conheceu o projeto por meio das redes sociais do Instituto Hermanitos e decidiu participar. Como relata, o programa “Mujeres Fuertes” foi determinante para iniciar uma nova fase em sua vida.
“Foi uma das melhores coisas que já me aconteceram, porque foi assim que comecei a trabalhar aqui no Brasil”, afirma a venezuelana Yizzell Carolina Mejías Briceno, de 38 anos, que vive no país há apenas oito meses após deixar sua terra natal.
A história de Yizzell reflete a realidade de centenas de chefes de família e mães solo refugiadas e migrantes que participam ou já participaram da iniciativa. Criado e executado pelo Instituto Hermanitos, o projeto nasceu em 2022 com a missão de promover autonomia financeira e fortalecimento social por meio do empreendedorismo nas áreas de gastronomia e beleza.
A formação é oferecida em Manaus (AM) e Boa Vista (RR), com inscrições gratuitas, e cada edição tem duração média de seis meses. Durante o programa, as participantes têm acesso a cursos profissionalizantes, oficinas, aulas de educação financeira, direitos trabalhistas e direitos da mulher, além de capacitação em habilidades socioemocionais e atividades de empoderamento feminino.
Além da formação, as participantes recebem apoio financeiro e um kit com equipamentos e produtos para iniciar o próprio negócio, garantindo maior autonomia e geração de renda para suas famílias.
Outro diferencial do projeto é o suporte oferecido às participantes para que possam frequentar as aulas. As mães podem levar os filhos para as atividades, e as crianças permanecem em um espaço preparado para brincar e estudar, com acompanhamento da equipe da instituição.
O diretor-presidente do Instituto Hermanitos, Túlio Duarte, destaca que, além da qualificação técnica, o “Mujeres Fuertes” busca oferecer acolhimento e fortalecimento emocional.
“O diferencial do projeto é atuar de forma integral. Trabalhamos a qualificação técnica, mas também o emocional e o social. Essa combinação é o que permite que tantas mulheres rompam ciclos de vulnerabilidade e conquistem autonomia sustentável — alcançando também suas famílias e pessoas próximas”, pontua.
A iniciativa já beneficiou 646 mulheres, sendo 447 em Manaus e 199 em Boa Vista. Do total, 637 são venezuelanas (98,6%), incluindo indígenas das etnias Warao, Pemón, Karinã, Arecuna e Wayuu. Também participaram mulheres de outras nacionalidades, como uruguaia, dominicana, haitiana, cubana e brasileira.
Somente em 2025, o projeto impactou diretamente cerca de 200 mulheres, entre elas 13 indígenas e 16 em situação de acolhimento institucional.
Impacto social
O impacto do projeto não se limita às participantes. Ao todo, 2.236 pessoas foram alcançadas de forma indireta nas duas capitais, considerando familiares e integrantes da rede comunitária.
Maria Belisario, supervisora da 9ª edição do projeto em Manaus, destaca a transformação vivida pelas participantes ao longo da formação.
“O que fica não é apenas o que foi aprendido, mas o que foi despertado em cada uma. Foi uma caminhada feita de escuta, troca, desafios e descobertas. Um percurso que exigiu coragem para recomeçar e disposição para aprender”, conta.
A iniciativa é executada pelo Instituto Hermanitos, com recursos oriundos de reversão trabalhista do Ministério Público do Trabalho no Amazonas e em Roraima (MPT-AM/RR) e apoio do Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região (TRT 11ª Região – AM/RR), da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Amazonas (Sebrae-AM).
O Instituto Hermanitos atua na promoção da dignidade, acolhimento e geração de oportunidades para pessoas refugiadas e migrantes nos estados do Amazonas e Roraima. Por meio de programas de empregabilidade, formação empreendedora, capacitações, apoio psicossocial e ações culturais, a instituição contribui para a integração e valorização desses grupos no contexto amazônico.
Saiba mais em: www.hermanitos.org.br
