Um aplicativo desenvolvido em Manaus pretende ampliar as formas de proteção às mulheres em situações de violência. A ferramenta, que está em fase final de desenvolvimento, foi idealizada pelo empresário e Head de Inovação e Tecnologia Leonardo Câmara e deverá ser lançada ainda neste semestre.
O projeto surgiu a partir da preocupação com os índices de violência doméstica e feminicídio no Amazonas. Segundo Câmara, levantamentos de instituições como o DataSenado e órgãos de segurança pública apontam que o estado apresenta números elevados desse tipo de crime, muitas vezes relacionados à falta de informação sobre direitos e à persistência de comportamentos associados a uma cultura patriarcal.
Diante desse cenário, a proposta foi criar uma solução tecnológica que fosse além de um simples canal de denúncia. A ideia, segundo o idealizador, foi desenvolver uma ferramenta capaz de reunir socorro imediato, orientação e prevenção.
A plataforma foi pensada para permitir que mulheres em situação de risco consigam pedir ajuda de forma rápida e registrar possíveis evidências de agressão. O desenvolvimento tecnológico está sendo realizado pela equipe técnica do Instituto de Desenvolvimento Ambiental e Social da Amazônia (IDASAM), responsável pela programação e construção do sistema.
Investimento

A empresa GBR Componentes decidiu financiar a iniciativa por meio de recursos de PD&I (Foto: Divulgação)
O projeto conta com investimento da empresa GBR Componentes, que decidiu financiar a iniciativa por meio de recursos voltados a Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I). Com o apoio, o aplicativo avançou para a fase final de desenvolvimento e a expectativa é que seja disponibilizado ao público ainda neste semestre.
Funcionalidades

Entre as principais funcionalidades está um botão de emergência, conhecido como botão do pânico. Ao ser acionado, o sistema envia automaticamente a localização em tempo real da usuária para até cinco contatos de confiança previamente cadastrados.
Além do envio da localização, o aplicativo também ativa um sistema de registro de evidências, capaz de gravar áudio e vídeo do ambiente. As informações ficam armazenadas em um arquivo seguro dentro da plataforma, com proteção contra exclusão imediata, o que pode auxiliar na comprovação de possíveis agressões.
A ferramenta também reúne outros recursos voltados à orientação das usuárias. Entre eles estão um espaço para armazenamento seguro de provas, informações sobre os direitos das mulheres, orientações sobre como buscar ajuda e um mapa com a rede de apoio disponível, incluindo delegacias especializadas e serviços públicos.
Outra funcionalidade prevista é o registro da existência de medidas protetivas. Dessa forma, os contatos de emergência cadastrados passam a ter conhecimento de que há uma proteção judicial em vigor.
Ainda segundo Leonardo Câmara, o aplicativo foi estruturado para atuar em três frentes principais: informação, prevenção e resposta rápida em situações de risco.
O início
O empresário afirma que a ideia do projeto começou a ganhar forma após um convite recebido da Loja Maçônica Rio Negro, em Manaus, para colaborar na criação de um programa de combate à violência contra a mulher e ao feminicídio. A partir desse contato, ele passou a estudar com mais profundidade os dados sobre violência doméstica no país e no Amazonas.
Durante esse processo, identificou que a falta de informação sobre direitos e mecanismos legais de proteção ainda é um obstáculo para muitas mulheres, especialmente em regiões mais afastadas dos grandes centros.
Câmara também aponta que a discussão sobre o enfrentamento à violência precisa envolver a sociedade como um todo, incluindo os homens. Segundo ele, a mudança cultural é um dos elementos centrais para reduzir os índices de agressão.
“Combater a violência contra a mulher não é responsabilidade apenas das mulheres ou das autoridades. É principalmente uma responsabilidade nossa, dos homens”, afirmou.
Ele acrescenta que a transformação começa com atitudes individuais e com a rejeição a qualquer tipo de violência ou opressão. “A proteção começa quando os homens entendem que respeito, dignidade e igualdade não são concessões, são princípios básicos de convivência”.
Embora o aplicativo ainda não esteja integrado diretamente aos sistemas das forças de segurança, há conversas iniciais sobre essa possibilidade no futuro. A integração, no entanto, depende da criação de estruturas específicas dentro dos órgãos públicos para o monitoramento e despacho de viaturas.
Até que essa etapa seja viabilizada, o foco da ferramenta será ampliar a rede de apoio por meio de contatos de confiança e facilitar o acesso à informação e ao registro de provas em situações de risco.
