Saúde

Estudo aponta nova pílula experimental como alternativa para simplificar tratamento de HIV em idosos

Medicamento em teste combina dois antivirais em dose única diária e apresentou eficácia semelhante aos regimes tradicionais, com potencial de melhorar adesão ao tratamento

Escrito por Redação
1 de março de 2026
A nova pílula reúne os antivirais bictegravir e lenacapavir e ainda está em fase experimental. Foto: Reprodução/ IA

Um medicamento experimental pode representar uma nova alternativa terapêutica para pessoas idosas que vivem há décadas com o HIV e precisam seguir rotinas complexas de tratamento, muitas vezes com a ingestão de vários comprimidos ao longo do dia.

A eficácia da pílula BIC/LEN, administrada em dose única diária, foi apresentada em ensaio clínico publicado na quarta-feira (25) na revista científica The Lancet. O estudo indica que o novo esquema pode simplificar o tratamento sem comprometer o controle do vírus.

O HIV, vírus da imunodeficiência humana, já foi considerado uma doença fatal devido ao comprometimento do sistema imunológico, que deixava pacientes vulneráveis a infecções graves e câncer. Com os avanços da medicina, terapias antirretrovirais passaram a permitir a supressão viral e a impedir a transmissão, desde que os pacientes mantenham adesão rigorosa ao tratamento.

No entanto, pessoas mais velhas que convivem com o vírus há muitos anos frequentemente precisam seguir protocolos mais complexos. Isso ocorre porque terapias utilizadas nas primeiras décadas da epidemia podem ter levado ao desenvolvimento de resistência viral, exigindo hoje combinações específicas de medicamentos.

Combinação de antivirais

A nova pílula reúne os antivirais bictegravir e lenacapavir e ainda está em fase experimental. A proposta é oferecer uma alternativa mais simples para pacientes com histórico de resistência a tratamentos anteriores.

“Este é um medicamento para pessoas com resistência viral, que não puderam se beneficiar de avanços na terapia de HIV”, explica Chloe Orkin, professora da Queen Mary University of London e principal pesquisadora envolvida nos estudos.

O ensaio clínico reuniu o grupo mais velho já incluído em testes desse tipo, com idade média de 60 anos e participantes com mais de 80 anos. Durante nove meses, parte dos voluntários utilizou a pílula diária BIC/LEN, enquanto o restante manteve o tratamento convencional com múltiplos comprimidos.

Os resultados mostraram supressão viral em cerca de 96% dos pacientes em ambos os grupos. Entre os usuários do novo medicamento, também foi observada melhora nos níveis de colesterol, fator relevante para idosos com maior risco cardiovascular.

Qualidade de vida e adesão ao tratamento

Segundo os pesquisadores, o novo tratamento pode beneficiar um grupo que ficou à margem das inovações recentes na terapia contra o HIV.

“Trata-se de uma população para a qual o tempo praticamente parou, porque nenhum desses avanços chegou até eles”, comenta Orkin.

Regimes complexos aumentam o risco de falhas terapêuticas, já que a ausência de apenas uma dose pode comprometer o controle do vírus. Participantes que utilizaram a nova pílula relataram maior satisfação em comparação aos pacientes que seguiram tratamentos tradicionais.

Para especialistas, a simplificação do regime pode favorecer a adesão ao tratamento e ampliar os benefícios clínicos. “Do ponto de vista do indivíduo, isso simplifica o uso dos medicamentos”, afirma Mitchell Warren, diretor executivo do AVAC, organização internacional de advocacy em prevenção do HIV, que não participou da pesquisa.

“É uma oportunidade incrível de facilitar a adesão a medicamentos, para as pessoas manterem a supressão viral. E isso é bom não só para quem vive com HIV – sabemos, com dados dos últimos 15 anos, que pessoas em terapia antirretroviral e com carga viral suprimida não transmitem o vírus a outras pessoas”, acrescentou Warren.

Próximos passos

O medicamento ainda não está disponível comercialmente e precisa passar por avaliações regulatórias antes de eventual aprovação. A pílula BIC/LEN está sendo analisada por agências como a Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, e a Agência Europeia de Medicamentos.

O medicamento também está sendo testado em comparação com uma terapia de referência para HIV em pessoas que não têm tratamentos complexos, e também mostrou ótimos resultados nesses casos, portanto representa um avanço geral na terapia contra o HIV”, comemora Orkin.

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