Crianças consideradas sem transtornos psicológicos passaram, nas últimas décadas do século XX, a apresentar níveis de ansiedade superiores aos registrados em pacientes infantis internados em serviços psiquiátricos nos anos 1950. A constatação faz parte de duas grandes meta-análises publicadas no Journal of Personality and Social Psychology, periódico científico da American Psychological Association (APA).
Os estudos analisaram dados coletados entre 1952 e 1993 e identificaram crescimento contínuo dos índices de ansiedade em diferentes gerações. O levantamento reuniu informações de 170 amostras de universitários norte-americanos, totalizando mais de 40 mil estudantes, além de 99 amostras envolvendo crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos, somando mais de 12 mil participantes.
O dado considerado mais expressivo pelos pesquisadores indica que crianças comuns da década de 1980 relataram níveis de ansiedade superiores aos observados em crianças hospitalizadas por transtornos psiquiátricos nos anos 1950.
O que foi analisado
As pesquisas avaliaram o chamado trait anxiety, conceito utilizado pela psicologia para descrever uma tendência relativamente estável de uma pessoa apresentar maior predisposição à ansiedade ao longo da vida. O indicador difere da chamada ansiedade de estado, que corresponde a reações temporárias diante de situações específicas.
Os resultados foram semelhantes tanto entre universitários quanto entre crianças e adolescentes, apontando aumento significativo da ansiedade ao longo das décadas analisadas. Diante da tendência observada, os autores classificaram o período como uma “era da ansiedade”.
Mudanças sociais e percepção de ameaça
De acordo com a pesquisadora Jean M. Twenge, da Case Western Reserve University, dois fatores aparecem como centrais para explicar o crescimento dos níveis de ansiedade: a redução da conexão social e o aumento da percepção de ameaças ambientais.
Durante o período estudado, os Estados Unidos registraram aumento nas taxas de divórcio, crescimento do número de pessoas vivendo sozinhas e queda nos níveis de confiança interpessoal — mudanças associadas ao avanço do individualismo e à diminuição do senso de pertencimento social.
Paralelamente, houve ampliação da percepção de risco coletivo, impulsionada por fatores como violência urbana, medo de guerra nuclear, surgimento da AIDS e maior intensidade da cobertura midiática sobre ameaças sociais.
Segundo a autora, embora a autonomia individual amplie oportunidades e liberdade, ela também pode contribuir para sentimentos de isolamento e vulnerabilidade, mantendo o organismo em estado constante de alerta.
Impactos psicológicos e físicos
O estudo também destaca que a ansiedade costuma anteceder outros transtornos mentais, especialmente a depressão. Dessa forma, o aumento estrutural da ansiedade pode ajudar a explicar a elevação posterior nos diagnósticos depressivos observados nas décadas seguintes.
Os pesquisadores apontam ainda associação entre transtornos ansiosos e maior risco de abuso de álcool e drogas, além de impactos físicos relevantes. Pessoas com níveis elevados de ansiedade apresentam maior probabilidade de desenvolver condições como asma, síndrome do intestino irritável, úlceras, doenças inflamatórias intestinais e doença coronariana.
Tendência persistente
Embora algumas ameaças ambientais tenham diminuído após o período analisado — como a queda nas taxas de criminalidade e a redução do medo de guerra nuclear —, os níveis de conexão social não demonstraram recuperação significativa. Apesar de leve redução nas taxas de divórcio, o número de pessoas vivendo sozinhas permanece elevado e os índices de confiança interpessoal continuam baixos.
A conclusão apresentada pelos pesquisadores aponta que, enquanto as pessoas não se sentirem socialmente seguras e conectadas, os níveis de ansiedade tendem a permanecer elevados.
Fonte: American Psychological Association (APA)
