Tecnologia

Ferramenta criada por brasileiro cruza dados públicos e aponta risco financeiro envolvendo políticos

Sistema reúne informações de emendas, contratos e vínculos empresariais a partir do CPF de agentes públicos e já identificou exposições que somam dezenas de milhões de reais

Escrito por Redação
24 de fevereiro de 2026
Foto: Reprodução

Um programador brasileiro desenvolveu um sistema que integra bases de dados oficiais para mapear padrões de risco financeiro envolvendo agentes públicos. A ferramenta utiliza o CPF de políticos e servidores para cruzar informações sobre transferências federais, contratos administrativos e vínculos empresariais, organizando dados que, até então, estavam dispersos em diferentes plataformas.

O responsável pelo projeto é Bruno César, que se apresenta como integrante do movimento br/acc, vertente nacional ligada ao accelerationism, corrente que defende o uso intensivo de tecnologia para acelerar transformações institucionais. A demonstração da ferramenta foi feita na rede social X, com a apresentação de uma interface baseada em grafos — diagramas que evidenciam conexões entre pessoas físicas, jurídicas e fluxos de recursos.

Entre os casos destacados pelo sistema estão situações em que verbas oriundas de emendas parlamentares foram destinadas a municípios que, posteriormente, firmaram contratos com empresas ligadas a familiares de congressistas. O cruzamento de dados também apontou indícios de inconsistências relacionadas a possíveis funcionários fantasmas e repasses federais a instituições de ensino com problemas em seus cadastros.

A ferramenta opera exclusivamente com dados abertos disponibilizados por órgãos como o Portal da Transparência, o Tribunal de Contas da União (TCU) e bases públicas da Receita Federal. O diferencial, segundo o desenvolvedor, está na consolidação automatizada das informações, tradicionalmente fragmentadas em sistemas distintos.

De acordo com Bruno, os achados identificados pelo modelo estatístico adotado representam exposições que somam dezenas de milhões de reais, classificadas como de risco elevado. Para reduzir questionamentos jurídicos, o projeto deixou de utilizar termos como “corrupção” e “suspeita” e passou a adotar pontuações percentuais de risco, método comum em ferramentas de compliance.

A proposta é submeter o código a revisão jurídica antes de disponibilizá-lo em formato open source. A prioridade, segundo o desenvolvedor, é ampliar o acesso de jornalistas investigativos, organizações da sociedade civil e órgãos de controle.

O projeto se inspira no conceito de effective accelerationism, que propõe o uso de soluções tecnológicas para enfrentar gargalos institucionais. No Brasil, a iniciativa dialoga com o avanço das políticas de transparência implementadas após a Lei de Acesso à Informação, em vigor desde 2011.

Embora as bases utilizadas já sejam públicas, especialistas apontam que a falta de integração entre sistemas dificulta análises mais amplas. Ao estruturar as informações em redes de relacionamento, a ferramenta amplia a capacidade de identificar padrões e conexões entre agentes públicos e fluxos financeiros.

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