Duas empresas ligadas ao caso Master chegaram a uma valorização conjunta superior a R$ 45,5 bilhões a partir de créditos de carbono estimados sobre uma área pública da União, localizada no município de Apuí, no sul do Amazonas. A terra, destinada à reforma agrária, não poderia ser utilizada como base para a geração de ativos privados, segundo documentos obtidos pela Folha de S.Paulo.
As empresas Golden Green e Global Carbon, controladas por fundos geridos pela Reag — alvo de investigações da Polícia Federal — tiveram seus ativos reavaliados por auditorias e pareceres que consideraram unidades de “estoque de carbono” vinculadas à área conhecida como Fazenda Floresta Amazônica, com cerca de 143,9 mil hectares. O território, no entanto, pertence à União e apresenta problemas fundiários reconhecidos há décadas.
De acordo com a reportagem, nenhuma das auditorias realizadas desde o início das operações verificou a regularidade fundiária da área, apesar de ela já ter sido alvo de ações da Polícia Federal. Além disso, os créditos utilizados como base para a valorização não encontram lastro no mercado, já que não são negociados.
A informação foi confirmada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). “Trata-se de área da União, destinada a Projeto de Assentamento Federal, contendo matrícula e Portaria de Arrecadação dos anos 1980”, informou a autarquia. Segundo o órgão, qualquer comercialização de ativos de carbono baseados na floresta da região configura irregularidade. Questionado sobre o uso da área como lastro para os créditos, o Incra foi categórico: “Os negócios são irregulares e causam danos à União”. O instituto acrescentou que “medidas administrativas e judiciais estão sendo adotadas”.
Ainda segundo o Incra, para impedir negociações envolvendo o território, foi instaurado um processo administrativo de fiscalização que resultou no bloqueio do cadastro do imóvel no Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR) e na negativa de certificação no Sistema de Gestão Fundiária (Sigef).
Os entraves fundiários da área já haviam sido abordados em reportagens anteriores, como no Globo Rural, em dezembro de 2024, no contexto da Operação Greenwashing, da Polícia Federal, e pelo UOL, em dezembro de 2025, durante a Operação Carbono Oculto, que investiga possíveis conexões com o caso Master. Na prática, o território não está regularizado como propriedade privada nem garante exclusividade sobre a terra ou sobre seus supostos ativos ambientais.
Apesar disso, auditorias e consultorias passaram a precificar e atualizar os valores dos chamados estoques de carbono, sem mencionar os litígios que envolvem a origem dos créditos. As empresas alegam que o inventário de carbono foi realizado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), que estimou a existência de 168,8 milhões de toneladas de CO₂ na área.
Com base nessa estimativa, a Ernest Young foi contratada em 2020 para avaliar a metodologia de cálculo utilizada, definindo, por exemplo, o valor de R$ 129,30 por unidade de carbono. Em 2022, a PwC Auditores Independentes analisou as demonstrações financeiras da Golden Green e chancelou o aumento do valor unitário para R$ 149,56. À época, a empresa declarou possuir 74,228 milhões de unidades, o que resultou em um ativo avaliado em R$ 11,1 bilhões. Em dezembro de 2024, a Crowe aprovou nova atualização, elevando o valor para R$ 197,49 por unidade — alta de 32% em dois anos — e totalizando R$ 14,6 bilhões.
Nenhuma das auditorias apresentou alertas ou ressalvas sobre a origem efetiva dos créditos, limitando-se a aceitar o modelo contábil e a informação de que o carbono estaria lastreado em Cédulas de Produto Rural (CPR), sob custódia de um escritório em Londres.
Situação semelhante ocorreu com a Global Carbon, empresa que surgiu em 2020 como um armarinho paulista com capital social de R$ 100 e alcançou uma avaliação de R$ 31 bilhões em 2024. Ambas estruturaram seus ativos bilionários sobre a mesma área pública, localizada em uma região marcada por desmatamento e grilagem.
A Golden Green tem como investidor o fundo Jade, enquanto a Global Carbon está vinculada ao New Jade 2, ambos administrados pela Reag e investigados desde a Operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro para o PCC. O New Jade 2 integra uma cadeia de fundos que se inicia no Hans 95, apontado pelo Banco Central como um dos veículos fraudulentos, conforme revelou a Folha.
Especialistas ouvidos destacam que, além da irregularidade fundiária, não há valor de mercado que sustente os preços atribuídos aos estoques. Créditos de carbono reconhecidos são certificados emitidos a partir de reduções comprovadas de emissões, o que difere das estimativas de carbono existente em uma área. Essas estimativas, por si só, não configuram ativos negociáveis nem asseguram compradores.
Nos próprios documentos, as empresas reconhecem que utilizam premissas internas para valuation, já que não há transações de mercado. À Folha, o economista Marco Aurélio Hardt, da Horbia Partners, responsável pelo laudo mais recente de avaliação da Global Carbon, afirmou que baseia suas análises no balanço financeiro fornecido pela empresa. “Eu assumo isso como dado. Não fiz cálculo nenhum, eu apenas reproduzi o que está no balanço patrimonial da empresa, que é auditado”, disse. “A prova que o ativo existe está na auditoria que foi feita sobre o balanço. Meu laudo é de avaliação econômica.”
No caso da Golden Green, Hardt reconheceu ter realizado uma avaliação em agosto de 2025, estimando a empresa em R$ 14,2 bilhões, mesmo sem balanço auditado por terceiros. “Lamentavelmente, no caso da Golden Green, eu só tenho o balanço, não auditado”, afirmou. Segundo ele, o procedimento não é irregular e está amparado pelas normas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Procurada, a Golden Green não respondeu. A Global Carbon informou que a informação do Incra “é correta quanto ao fato de a área ser pública” e afirmou que tomou conhecimento disso “dois anos depois da originação dos ativos ambientais”. Segundo a empresa, o desenvolvedor do projeto comunicou voluntariamente o fato ao Incra, em janeiro de 2025. A companhia declarou ainda estar em “fase avançada de tratativas com a diretoria fundiária da autarquia para regularização dos ativos ambientais” e que negocia um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).
A defesa de Daniel Vorcaro declarou que o Banco Master e seu controlador não são, nem nunca foram, cotistas, gestores ou administradores dos fundos citados. “A defesa permanece colaborando com as autoridades competentes e reitera confiança de que o esclarecimento dos fatos afastará associações que não refletem a realidade”, informou.
A Reag afirmou que as empresas “estão em fase de preparação” e que possuem ativos ambientais oficialmente registrados, ainda sem geração de produto ou receita, por dependerem de etapas técnicas e regulatórias. “As empresas possuem áreas de floresta para gerar crédito de carbono”, declarou.
A Ernest Young informou que foi contratada apenas para “um serviço de checagem de metodologia de fórmulas matemáticas, proprietárias da própria BMV (Brasil Mata Viva)” e que “foi verificada a fórmula do cálculo e não os valores, nem sua origem”. A empresa ressaltou que “não houve a contratação de serviços de auditoria”.
A PwC não se manifestou até a publicação da reportagem. Já Marcelo Lico, sócio-fundador do Grupo Crowe Macro Brasil, afirmou que o trabalho foi realizado “em estrita conformidade com as normas brasileiras e internacionais” e que, em auditorias, a função é “expressar uma opinião sobre as demonstrações contábeis do exercício social, com base em evidências obtidas à época”.
Fonte: Folha de S.Paulo
Jornalistas: André Borges, Adriana Fernandes e Lucas Marchesini
