O uso das chamadas canetas emagrecedoras por pessoas idosas exige atenção redobrada para evitar o agravamento de perdas funcionais, alertaram especialistas em geriatria em entrevista concedida nesta terça-feira (6). A avaliação é do presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Leonardo Oliva.
Segundo Oliva, sem acompanhamento médico adequado, pessoas com 60 anos ou mais ficam mais suscetíveis a efeitos adversos imediatos, como náuseas e vômitos, além da dificuldade de ingestão de alimentos e líquidos, o que pode levar à desidratação e a distúrbios eletrolíticos, considerados potencialmente graves. A médio prazo, o quadro pode evoluir para desnutrição.
Outro ponto de atenção é a perda de massa muscular associada ao emagrecimento, que tem impacto mais significativo na população idosa.
“Cerca de um terço do peso que a gente perde, com o uso dessas medicações, é peso em músculo, em massa magra. Não tem como a gente emagrecer apenas a gordura. O corpo perde gordura, mas perde também músculo”.
De acordo com o especialista, essa redução muscular pode comprometer a funcionalidade do idoso, afetando a capacidade de realizar atividades cotidianas.“Então, é algo muito significativo que, inclusive, pode não ser recuperado”.
O diretor-científico da SBGG, Ivan Aprahamian, acrescenta que a combinação entre menor apetite, náuseas e rápida perda de peso pode precipitar síndromes geriátricas, como a sarcopenia e a fragilidade física.
Uso terapêutico
O presidente da SBGG reforça que as canetas emagrecedoras são indicadas para o tratamento de condições como obesidade, diabetes e apneia do sono, e não para a perda de poucos quilos com finalidade estética.
“Hoje, a gente vê os indivíduos que querem perder três quilos ou a gordura localizada, a barriga, utilizando essas medicações. Não há indicação médica para isso”.
Para Oliva, apesar dos riscos quando usadas de forma inadequada, as canetas representam um avanço importante da medicina.
“Um tratamento muito bom, uma inovação fantástica da medicina que deve ser usada de maneira apropriada, para o diabetes, a apneia do sono ou a obesidade, que é uma doença grave crônica de difícil tratamento”.
A SBGG alerta que, embora essas medicações tenham ganhado popularidade por sua eficácia na perda de peso e no controle glicêmico, o uso indiscriminado e sem supervisão médica pode colocar a saúde em risco, especialmente entre idosos.
Dentro do tratamento da obesidade, os especialistas recomendam acompanhamento médico e nutricional contínuo, além do suporte de fisioterapeutas ou educadores físicos. A prática regular de atividade física é considerada fundamental para minimizar a perda muscular durante o emagrecimento.
Oliva também orienta que a perda de peso não seja acelerada.
“Quanto mais rápido, maior a tendência de perda associada de massa muscular”.
Segundo ele, o processo precisa ser monitorado para garantir ingestão adequada de nutrientes essenciais.“Vitaminas, minerais e atividade física de forma regular e, especialmente, exercícios do tipo musculação, para que não haja perda de massa muscular também”.
Conscientização
O geriatra destaca que o envelhecimento traz mudanças naturais no corpo, incluindo maior tendência ao acúmulo de gordura.“Essa é uma memória genética que está associada à dificuldade de conseguir alimento. Porque, teoricamente, quanto mais velho o indivíduo se torna, mais difícil seria para ele conseguir o alimento”.
Ele ressalta, no entanto, que o combate à obesidade deve estar associado à busca por saúde, e não apenas à redução do peso corporal.“Não é só uma questão de balança, é uma questão de buscar ter mais saúde”. Isso envolve alimentação equilibrada, atividade física regular e atenção à saúde emocional e psicológica.“Uma dieta de restrição calórica precisa ter um bom acompanhamento do ponto de vista psicológico, de saúde emocional”.
Receita médica
Outro cuidado considerado indispensável é a compra das medicações apenas com receita médica e em farmácias legalizadas. Oliva alerta para a existência de produtos falsificados no mercado ilegal.
“Isso as torna mais perigosas ainda”.
Ele explica que o controle por agências reguladoras garante padrões de qualidade e segurança, o que não ocorre com medicamentos adquiridos fora do circuito legal.“Comprar medicação em mercado paralelo é colocar a saúde em risco de uma forma muito grande”.
O presidente da SBGG também chama atenção para a importância da exigência de prescrição médica.
“Na verdade, quando se impõe a necessidade de receita médica para se adquirir um medicamento, o que está sendo dito é que a pessoa só deve utilizar essa medicação após uma avaliação médica”.Ele reforça que não se trata de obter a prescrição informalmente.
“A gente tem que se submeter a uma avaliação médica, para que a indicação seja muito bem-feita e para que as consequências maléficas ou deletérias sejam acompanhadas para que não aconteçam. A necessidade da receita médica é exatamente para isso”.
