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Venezuela responde por menos de 1% do mercado mundial de petróleo, apesar de maior reserva

Especialista aponta que sanções, falta de infraestrutura e tipo do petróleo limitam impacto venezuelano no comércio global

Escrito por Redação
6 de janeiro de 2026
Foto: Reprodução

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela, país que concentra a maior reserva de petróleo do planeta, provocou oscilações nos preços do dólar, do ouro e do próprio barril de petróleo no mercado internacional. Apesar da reação imediata, especialistas avaliam que o impacto real da produção venezuelana no comércio global do petróleo é bastante limitado.

Ouvido pela Agência Brasil, o professor Alexandre Szklo, do Programa de Planejamento Energético do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), explica que a volatilidade observada após o ataque tem caráter mais especulativo do que estrutural. Segundo ele, a Venezuela responde atualmente por “menos de 1%” do mercado mundial de petróleo.

De acordo com o especialista, essa baixa participação é resultado de dois fatores principais: as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e as próprias características do petróleo venezuelano, predominantemente pesado e extrapesado, que exigem refinarias específicas, concentradas sobretudo no Golfo do México e em território norte-americano.

Maior reserva não significa produção imediata

Apesar de deter a maior reserva de petróleo do mundo, a Venezuela enfrenta limitações para transformar esse potencial em produção efetiva. O processo de exploração envolve uma cadeia complexa que vai desde o planejamento e estudos geológicos até a extração, o refino, a distribuição e a comercialização do produto.

Szklo ressalta que grande parte das reservas venezuelanas ainda não dispõe de infraestrutura adequada para exploração em larga escala, o que reduz significativamente sua presença no mercado internacional.

Participação limitada no mercado global

“Hoje, a Venezuela produz muito pouco e oferece muito pouco para o mercado internacional de petróleo. Uma coisa é o potencial que a Venezuela tem de produzir óleos, sobretudo extrapesados. Outra coisa é quanto a Venezuela supri de óleo o mundo. Atualmente, é menos do que 1%”, afirmou o professor da UFRJ.

“O impacto de curto prazo da Venezuela no mercado internacional de petróleo, portanto, é bastante limitado”, completou.

Além do baixo volume produzido, o tipo de petróleo encontrado no país impõe restrições adicionais. Segundo o especialista, apenas refinarias de maior complexidade conseguem processar óleos pesados.

“Então, na prática, esse óleo acaba impactando muito mais nas refinarias de maior complexidade da costa do Golfo do México e dos Estados Unidos. [O petróleo venezuelano] atenderia potencialmente as refinarias de maior complexidade, localizadas na região”, explicou, ao ponderar que, em um cenário de longo prazo, a produção venezuelana pode ganhar maior relevância.

Comércio clandestino e sanções

O professor também chamou atenção para o crescimento do comércio clandestino de petróleo, prática associada a países submetidos a sanções internacionais, como Venezuela e Irã, além da Rússia, alvo de restrições europeias.

“O comércio clandestino de petróleo feito pelas chamadas frotas fantasmas está muito associado às sanções”, destacou.

Segundo ele, a principal dificuldade está na contratação de seguros para as cargas transportadas. “Na prática, todo navio petroleiro precisa sobretudo de ter um contrato de seguro para a carga que ele está transportando. Ele tem o número de registro. Quando você tem as sanções, isso faz com que exista um prêmio de frete para determinados navios que não seguem os critérios de contratação típicos, nem passam por seguro da sua carga”, explicou.

Szklo alerta ainda para os riscos envolvidos nesse tipo de operação: “Especula-se algo da ordem de 300 embarcações de petroleiros de grande porte compondo essas frotas fantasmas”.

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