Cultura

Consciência Negra: conheça quatro escritores negros da literatura brasileira 

Histórias, poesia e resistência de autores que transformam a literatura

Escrito por Ingrid Simões
20 de novembro de 2025
Fotos Cecília Ferreira/Diário da Capital / Dani Paiva/ABL / Lucas Seixas/Folhapress / e Reprodução/Brasil Cultura e Portal Cultura do Norte

O Dia da Consciência Negra, celebrado neste dia 20 de novembro, marca a morte de Zumbi dos Palmares, um dos principais líderes da luta pela liberdade e resistência negra durante a escravidão no Brasil. A data convida o país a olhar para sua história e também para o presente, uma vez que, mesmo tantos anos após a abolição, o racismo perdura na sociedade. Ele aparece na falta de oportunidades e na tentativa de apagar a cultura e a contribuição africana na construção do Brasil e também na dificuldade que muitos autores e estudantes negros enfrentam para terem seus conhecimentos valorizados.

✊🏾 Por meio da escrita, homens e mulheres negros recuperam suas histórias. Embora esse movimento tenha ganhado mais força no século XX, a presença na nossa literatura é antiga. 

Ler autores negros brasileiros é um ato necessário para compreender a complexidade histórica do país. Ao recuperar vozes que por séculos foram silenciadas, mas fundamentais na formação da identidade nacional, o gesto se torna também uma forma de reconhecimento e reparação. Além de ampliar o repertório cultural do leitor, essa leitura oferece perspectivas essenciais para entender o legado e as consequências da escravidão no Brasil.

Zumbi dos Palmares, líder da resistência negra na época do Brasil Colonial — Foto: Reprodução/Brasil Cultura

No século XIX, Luiz Gama e Maria Firmina dos Reis já denunciavam injustiças e enfrentavam o racismo usando a palavra. Depois, no início do século XX, Lima Barreto revelava em seus textos a desigualdade deixada por séculos de escravidão. Entre os grandes nomes da literatura brasileira também está Machado de Assis, um dos primeiros autores negros a ganhar reconhecimento nacional, mesmo que sua identidade tenha sido escondida por muito tempo.

É a partir dessa história de luta e resistência que apresentamos quatro autores negros do Brasil. Confira!

Ana Maria Gonçalves

Ana Maria Gonçalves — Foto: Dani Paiva/ABL

Ana Maria Gonçalves nasceu em Ibiá, Minas Gerais, em 13 de novembro de 1970, filha de uma costureira e de um funcionário de laticínio. Desde cedo, demonstrou interesse pela leitura e pela escrita, paixão que a acompanharia ao longo da vida.

Em 2025, Ana Maria Gonçalves se tornou a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), sendo eleita para a cadeira 33 com 30 dos 31 votos. Em seu discurso, destacou a ancestralidade, agradeceu às mulheres negras que abriram caminho e enfatizou seu objetivo de tornar a Academia um espaço mais diverso, dando voz a histórias dos autores negros.

Além de escritora, Ana Maria também é roteirista, dramaturga e professora de escrita criativa, e tem uma trajetória internacional: viveu oito anos nos Estados Unidos, onde publicou contos, ministrou cursos e palestras e foi escritora residente em universidades como Tulane, Stanford e Middlebury.

Antes de se dedicar integralmente à literatura, trabalhou por 15 anos na área de publicidade, mas em 2002 decidiu seguir seu verdadeiro chamado e lançou seu primeiro romance, “Ao lado e à margem do que sentes por mim”. Alguns anos depois, publicou “Um Defeito de Cor”, obra que levou cinco anos para ser concluída.

O romance histórico conta a trajetória de uma africana idosa, cega e à beira da morte, que viaja da África para o Brasil em busca do filho perdido há décadas, e aborda a ancestralidade, o racismo e a resistência. A obra recebeu o Prêmio Casa de las Américas em 2007.

Conceição Evaristo

Conceição Evaristo — Foto: Lucas Seixas/Folhapress

Nascida em 1946, em Belo Horizonte, Conceição Evaristo é uma das principais vozes da literatura contemporânea. A autora cresceu em uma favela e transformou suas experiências de vida em obra literária, consolidando o conceito de “escrevivência”, a união entre escrita e vivência, especialmente a experiência negra.

Sua carreira literária começou nos anos 90, com publicações nos Cadernos Negros, do Grupo Quilombhoje. Entre suas obras mais conhecidas está o romance de estreia da autora, “Ponciá Vicêncio”, lançado em 2003, que narra a história de uma mulher negra em busca de pertencimento, atravessando gerações marcadas pela escravidão e pelo racismo. 

Além de romances, Evaristo escreve contos, poemas e ensaios, abordando racismo, desigualdade social e a vida das mulheres negras. Sua obra recebeu reconhecimento nacional e internacional, incluindo o título de Personalidade Literária do Ano do Prêmio Jabuti 2019.

Gracinete Felinto

Gracinete Felinto — Foto: Cecília Ferreira/Diário da Capital 

Nascida em Manaus, em 1974, Gracinete Felinto é professora, escritora e poeta, formada em Licenciatura em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Iniciou sua trajetória literária em 2000, participando do 3° Concurso Estudantil de Poesia (CESPOE) e integrando o grupo Poetas Emergentes. Desde então, construiu uma carreira sólida dedicada à literatura e poesia no Amazonas.

Em 2004, tornou-se membro fundador do Clube Literário do Amazonas (CLAM), contribuindo para diversas antologias coletivas, como “A Quinta Estação” e “Kigo – As quatro estações”. Ela também participou da coletânea “Autobiografia”, uma antologia poética para celebrar os 20 anos do CLAM, na qual assinou 11 poemas.

Após mais de 25 anos de estrada, Gracinete lançou sua obra solo voltada ao público infantojuvenil: “O Menino Poeta das Asas Douradas”. O livro conta a história de João, um menino com asas douradas e um coração cheio de poesia, que transforma o mundo ao seu redor ajudando pessoas a redescobrir a beleza da vida. 

Nelson Castro

Nelson Castro — Foto: Reprodução/Portal Cultura do Norte

Nelson Castro, também de Manaus, é professor, poeta, escritor e produtor cultural. Graduado em Letras e com pós-graduação em Gestão da Educação, é membro fundador e atual presidente do CLAM e da Academia Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)

Desde 1994 participa ativamente de eventos culturais e literários, idealizando projetos como Bloomsday e Dia do Poeta. Entre suas obras, organizou diversas antologias coletivas, como “A Quinta Estação” (2008), “Silves – Cidade Risonha” (2021), “Autobiografia” (2022) e “Kigo – As Quatro Estações” (2024). 

Em 2024, recebeu o Prêmio Mestre da Cultura do Estado. 

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