Quando eu vejo a juventude da Amazônia sonhando com um futuro melhor, eu lembro do curumim que eu fui um dia. Um jovem do interior que precisou atravessar o Amazonas para estudar e trabalhar. Não foi escolha de conforto, foi necessidade. E essa é a realidade de milhares de jovens que deixam seus municípios porque, lá, o sonho esbarra na falta de ensino técnico, cultura, esporte, internet de qualidade e políticas públicas que abram portas de verdade.
Mas existe também a juventude que fica, e essa é uma dor silenciosa. Muitos permanecem não porque querem, mas porque não têm condições de sair. E ficam esperando que alguém olhe por eles, que o gestor municipal invista em cursos, tecnologia, esporte, cultura, e crie oportunidades dentro do próprio território. Quando o poder público esquece o jovem, o município perde junto: perde talento, perde força, perde futuro.
Eu sempre digo uma coisa: jovem que tem futuro não é jovem privilegiado. É jovem que teve oportunidade. E oportunidade não pode ser sorte, tem que ser política pública. Seja para quem atravessa o rio em busca de estudo, seja para quem fica rezando para não precisar ir embora. A Amazônia é imensa, mas não pode continuar sendo um lugar onde o sonho depende de conseguir uma passagem de barco ou de avião.
Eu atravessei o Amazonas atrás de uma chance, e agradeço as mãos que me ajudaram. Mas sempre penso: e quem não consegue atravessar? Esse jovem também merece ser visto. A juventude amazônica tem sede de futuro, falta é o mundo olhar para ela com a mesma generosidade com que ela olha para o mundo.
Colunista
Israel Paulain
Artista Amazônida e Bacharel em Direito
