Política

Na CPI, juíza aponta evasão escolar e radicalização online como fatores da criminalidade juvenil

Magistrada afirma que evasão escolar impulsiona jovens pobres para o tráfico, enquanto adolescentes de classes mais altas são atraídos por comunidades violentas na internet

Escrito por Rosianne Couto
12 de março de 2026
A juíza Vanessa Cavalieri durante depoimento na CPI do Crime Organizado no Senado. Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

A juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, apresentou uma radiografia preocupante sobre a criminalidade entre crianças e adolescentes durante audiência na CPI do Crime Organizado do Senado. Segundo a magistrada, o envolvimento de menores com o crime no Brasil revela falhas estruturais do Estado, especialmente na área da educação.

De acordo com dados apresentados por Cavalieri, cerca de 78% dos adolescentes que cometem infrações abandonaram a escola ainda no sexto ano do ensino fundamental. Para a juíza, o sistema educacional falha ao não garantir aprendizagem básica e ao não oferecer perspectivas profissionais aos jovens.

Eles não sabem ler, escrever e fazer contas de matemática depois de ter permanecido cinco, seis anos na escola”, afirmou. Segundo ela, muitos adolescentes vivem sob pressão econômica e buscam autonomia financeira cedo. Nesse cenário, o tráfico de drogas se torna uma alternativa rápida de renda.

Enquanto não há vaga de jovem aprendiz para esse jovem pobre, tem uma empresa onde nunca faltam vagas. Essa empresa é uma organização criminosa chamada tráfico de drogas”, declarou a magistrada.

Durante a audiência, Cavalieri também destacou uma mudança no perfil de parte dos menores envolvidos em crimes. Segundo ela, desde 2019 tem crescido o número de adolescentes de classes média e alta que entram em ambientes de radicalização violenta no meio digital.

Nesse grupo, o principal fator de risco não é a exclusão econômica, mas a vulnerabilidade emocional e o isolamento social. A juíza explicou que muitos jovens acabam sendo atraídos por comunidades virtuais que estimulam discursos de ódio, violência e extremismo.

Entre os ambientes citados pela magistrada está o Discord, plataforma onde, segundo ela, grupos fechados têm servido de espaço para radicalização e incentivo a crimes.

Cavalieri também criticou o que considera uma atuação desigual das forças de segurança pública. Segundo a juíza, a repressão policial costuma ser mais intensa em áreas pobres, enquanto regiões de classe média e alta recebem menos abordagens.

Ao defender políticas públicas mais amplas, a magistrada afirmou que o combate à criminalidade juvenil precisa começar ainda na infância, com educação de qualidade, inclusão social e oportunidades reais para os jovens.

O trecho divulgado pela TV Senado pode ser assistido abaixo:

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